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Em seu novo disco, 'O Paraíso', Lucas Santtana pisa em terreno hostil com poesia e belas melodias

A imaginação e criatividade de Lucas é bela e peculiar. Ouvir sua música sempre te deixa reflexivo e inquieto.

Imagem Reprodução.


‘O Paraíso’ (2023), é o novo disco do músico baiano Lucas Santtana, que há muito tempo vive em Paris. O novo trabalho é dotado de reflexões, versos líricos e uma mistura sensível e impecável de música pop internacional, MPB e traços melódicos da boa Bossa Nova, com aquela pitada tropicalista que projeta uma atmosfera intrigante e diferenciada no conjunto das canções. Muito da sonoridade do disco e dos assuntos abordados nas dez faixas, vem das vivências e andanças pelo mundo, o que proporcionou ao artista uma visão distinta de tudo que acontece aqui no Brasil.


Lucas sempre foi um músico atento e contextualizado com o que acontece no mundo e como evolui o comportamento humano vivendo em sociedade. A música entrou em sua vida muito cedo, filho do produtor musical Roberto Sant’Ana, graças ao pai cresceu convivendo com Caetano Veloso, Tom Zé (primo de seu pai) e outros artistas. O novo disco é fruto de diversas influências, como ritmos afro-brasileiros. Morar em Paris permitiu que ele tivesse uma visão mais ampla do mundo, o que o fez enxergar inúmeras situações e fatos sob uma nova perspectiva, às vezes dura, ácida e crua, mas sem deixar de ser leve, positivo e encantador, com doces e belas melodias.



Isso é bem caracterizado e enraizado na ótima faixa-título (O Paraíso) que abre o trabalho. Uma introdução arrebatadora e concisa que consegue prender a atenção do ouvinte desde o começo. O compositor baiano usa versos líricos e poéticos para tratar de assuntos existenciais e ambientais. “Sim! Sim! O paraíso já é aqui”, canta ele. Uma mistura de bossa nova com camadas eletrônicas que ganham novas proporções, um conjunto de nuances e elementos que se expandem na faixa seguinte: “What’s Life”, uma canção que reflete sobre a modernidade, o excesso das redes sociais, a vida, a terra, a ilusão maquiada de bem-estar projetada no consumismo desenfreado que alimenta as feridas abertas pelo capitalismo.


São temas que por hora podem soar desanimadores, realistas e conscientes, porém o músico abraça uma sonoridade harmoniosa que transmite positividade, leveza e aconchego. As letras poéticas, líricas e inteligentes ajudam a suavizar o fastidioso clima de temas hostis. E esse sentimento se manifesta por todo o disco como se ele renovasse os temas encontrados no trabalho de estreia 'Eletro Ben Dodô de 2000, com uma nova proposta e atualização dos acontecimentos sociais que se espalharam pelo Brasil.



Até mesmo quando ele embarca em uma narrativa inspirada por elementos da ficção científica para tratar de assuntos que agradam as grandes corporações, bancos e políticos que visam colonizar os menos favorecidos, "Vamos Ficar Na Terra" consegue tocar nesses temas de uma maneira mais leve e melódica. Seus versos também apontam positividade e esperança, as coisas podem dar certo de agora em diante. "Ela se chama ganância/Casou com fidalgo consumo/Tiveram milhares de filhos/Todos se chamam defunto", diz o verso que abre a canção.


A imaginação e criatividade de Lucas é bela e peculiar. Ouvir sua música sempre te deixa reflexivo e inquieto. Como se fosse um manifesto de todas as coisas não ditas e não percebidas pela maioria que se dizem ser de bem.

"La Biosphère" chega com uma letra cantada em francês e carrega uma atmosfera contagiante e gostosa de ouvir. Lembra certas coisas do músico e compositor Silva. Uma faixa lenta que aos poucos vai se entregando e deságua em um belo coro de vozes e instrumental que destacam todo o processo criativo do músico. "The Fool on The Hill" é uma releitura formidável da canção dos Beatles apresentada em 'Magical Mystery Tour' de 1967, a faixa conta com a participação da cantora e compositora Flore Benguigui do grupo francês L’Imperatrice.


"A Transmissão" pode ser um dos vários pontos altos deste disco que já se coloca entre os melhores álbuns nacionais de 2023. Uma música que retrata a pandemia da Covid -19 e os pensamentos conservadores de líderes políticos da extrema-direita. Uma canção urgente, colada corajosamente no agora, necessária para elucidar tudo aquilo que muitos ainda não querem ver. “A quantos corpos será necessária a transmissão / Para a humanidade então entender o sinal", indaga o músico. Um questionamento que continua solto no ar, e com sabor amargo na vida de inúmeras famílias vítimas da Covid-19.



A grande sacada de Lucas Santtana é tocar em assuntos difíceis, contrastando com a suavidade agridoce de seus vocais e nos timbres afáveis das melodias de cada canção que se ligam em uma única junção do começo ao final. São sutis alocações que terminam na última faixa, "Sobre a Memória", canção que quase acaba sendo eclipsada pelo clima penoso e difícil do disco anterior, mas mantém o teor esperançoso do contexto e proposta do álbum. 'O Paraíso' é com toda certeza um dos melhores discos nacionais de 2023, uma ótima e criativa surpresa para esse início de ano, trazendo reflexões importantes para traçar um novo caminho de agora em diante.

 

O Paraíso

Lucas Santtana


Lançamento: 13 de janeiro de 2023

Gênero: MPB, Bossa Nova, Pop

Ouça: "O Paraíso", "La Biosphère" e "A Transmissão"

Humor: Agridoce, Suave, Melódico


 

NOTA DO CRÍTICO: 8,0

 

Ouça a faixa 'A Transmissão':




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