Em Pluribus, Vinge Gilligan mostra uma epidemia diferente dentro de uma sci-fi distópico inovador
- Eduardo Salvalaio
- há 22 horas
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Entre o sci-fi distópico, humor sombrio e o drama psicológico, Pluribus precisa ser apreciada sem pressa

Atenção: O texto a seguir traz resumo e considerações da primeira temporada. Contém SPOILERS!
Vince Gilligan é um escritor, produtor e diretor que sabe criar algo que permaneça na memória dos espectadores. Nos anos 90, ele já tinha esse dom quando produziu alguns episódios de Arquivo X. Entretanto, foi com Breaking Bad, a partir de 2008, que Gilligan trouxe um novo olhar no mundo das séries de TV, uma produção eleita como uma das melhores destes tempos e que certamente será também apreciada pelas próximas gerações.
No caso de Pluribus, parece que o diretor tem tudo para repetir o mesmo sucesso. De uma forma bem diferente, apesar de incluir elementos que também estiveram presentes na série estrelada por Bryan Cranston em seu notório e inesquecível personagem Walter White: a humanidade, personagens principais complexos e infelizes, o fator surpresa em meio ao cotidiano e até mesmo o equilíbrio entre momentos cômicos e sombrios.
Engraçado que a narrativa de Pluribus começa engrenada por uma epidemia. Porém, aqui a epidemia assola o mundo com a felicidade plena. Nada de violência, todos são iguais, tudo é feito e pensado coletivamente, animais não são sacrificados, frutas só podem ser colhidas caso caiam das árvores e a ajuda mútua é uma regra entre os infectados.

Um primeiro episódio muito bem construído em que o espectador vai entendendo o processo de contágio e, mesmo que ele saiba da sinopse, é gratificante observar como a epidemia vai surgindo. No meio desse contágio, algumas pessoas ficaram imunes. Entre elas, temos a escritora Carol Sturka (Rhea Seehorn).
Nesse processo de entender o que está acontecendo ao seu redor, Carol se vê atordoada com os eventos do início de pandemia. E aqui, chega uma das habilidades de Gilligan: criar um cenário caótico, repleto de informações, detalhes e de cenas inusitadas, sem apelar para violência extrema, sangue ou exageros cinematográficos.
Carol, mesmo podendo pedir ajuda aos infectados, prefere se isolar em sua casa. Mas é questão de tempo para que ela colha mais algumas informações a respeito da epidemia. Também descobre que outras 12 pessoas ficaram imunes como ela, mesmo que tais pessoas não estejam tão preocupadas quanto ela sobre o acontecimento.
Tentando buscar um jeito de reverter a epidemia, Carol se envolve em mais investigações e descobre sobre fatos perturbadores, inclusive sobre a alimentação dos infectados. Dessa forma, Vince nos mantem firmes com outro recurso que sabe usar muito bem: cliffhangers (como fez tão bem ao final do episódio 5).
Após a metade da primeira temporada, eis a hora de dar destaque a outro personagem muito importante: Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga). Um cidadão paraguaio que se isolou muito mais que Carol. Enclausurado dentro da sala de uma oficina mecânica, o personagem vive uma rotina cuja maior atividade é anotar frequências de rádios numa caderneta.
Ao saber dos vídeos de Carol, Manousos resolve então partir do Paraguai para Albuquerque nos EUA para conhecê-la. Até então, um personagem que aparecia em pequenos trechos se torna gigante em tela. Em seu modesto carro e sem a ajuda dos infectados, ele embarca numa odisseia que envolve desde falta de gasolina até terrenos íngremes.
Claro que Vince acentua essa viagem do personagem com cenas bem tensas como a floresta que ele precisa atravessar repleta de árvores com grandes espinhos. A busca do personagem em não se entregar em sua jornada rende dor, sofrimento e até mesmo a perda de seu carro.

Claro que nem tudo é fácil, sobretudo na visão de Gilligan. A chegada de Manousos em Albuquerque não será tão tranquila. Desconfianças, conversas através de traduções pelo celular e o medo de ser espionado adiciona outra camada tensa à narrativa. E pensávamos que Carol era uma personagem intrincada e aborrecida, porém Manousos garante outro elemento fundamental para uma segunda temporada.
Pluribus tem o poder de engrandecer cenas que poderiam parecer monótonas ou sem sentido, inclusive quando se trata da solidão dos personagens. A composição dos cenários e alguns eventos inusitados reforça esse sentimento. Até mesmo um drone que busca a encomenda de Carol e que se prende ao poste pode render uma cena crucial e que pode soar tensa.
A trilha sonora também merece destaque. Com vários gêneros e trazendo ícones da música mundial, podemos conferir Ray Charles (‘Georgia on My Mind’), Miles Davis (‘All of You’), Sade Adu (‘The Sweetest Taboo’), Steppenwolf (‘Born To Be Wild’), entre outros. R.E.M. com sua clássica ‘It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)’ se encaixa bem numa cena que envolve Carol.
Entre o sci-fi distópico, humor sombrio e o drama psicológico, Pluribus precisa ser apreciada sem pressa. Lembrando que as criações de Gilligan não costumam ter impacto imediato. Ele próprio já afirmou que a série não será rápida tal qual um vídeo de Tik Tok.












