Depois da queda, a música: Luca Frazão transforma um susto em Despencando
- Marcello Almeida

- há 1 dia
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Entre o susto e o recomeço, Luca Frazão transforma a própria queda em música

Algumas músicas demoram anos para ficar prontas. Ficam pela metade, esperando uma ideia, uma tarde livre, qualquer coisa que faça o compositor voltar até elas. Para Luca Frazão, esse retorno veio acompanhado de uma urgência bastante diferente: o medo de não ter tempo.
Violonista, compositor, arranjador e professor, o músico paulistano lança nesta sexta-feira (4) Despencando, seu primeiro álbum, depois de 15 anos construindo uma trajetória pela música instrumental. São oito composições próprias para violão de sete cordas solo, escritas ao longo dos últimos anos e finalmente reunidas em um trabalho que carrega muito mais do que uma estreia.
Antes do disco, Luca já havia apresentado a faixa-título, “Despencando”, acompanhada de videoclipe. Sua trajetória também ajuda a entender de onde vem a música que aparece agora: ele já dividiu apresentações com Juçara Marçal, Ná Ozzetti, Luedji Luna, Liniker, Maurício Pereira, Di Melo e Suzana Salles, além de participar de gravações ao lado de Tom Zé, Jaques Morelenbaum, Toninho Ferragutti, Arrigo Barnabé e Alzira E.
Mas a história de Despencando passa por uma madrugada de 2021. Luca estava na casa da mãe e havia adormecido no sofá. Ao acordar, levantou para seguir até o quarto. No caminho, sentiu uma dor estranha no peito e perdeu a consciência. Quando voltou a si, estava no chão, cercado pelo desespero da mãe e por uma poça de sangue.
“A história é um pouco trágica, mas no fim deu tudo certo”, conta. “Ela gritava desesperada: ‘você está no chão, você tá no chão’. Só fui entender quando recuperei a consciência e percebi que estava numa poça de sangue no quarto. Quando levantei e me olhei no espelho, vi que tinha quebrado os três dentes da frente. Eu literalmente mordi o taco, e até hoje tem a marca dos meus saudosos dentes no chão da casa dela. Desespero completo.”
Vieram os exames. Durante a investigação médica, surgiu a hipótese de uma obstrução em uma artéria importante do coração. Era preciso descobrir rapidamente o que havia acontecido, diante da possibilidade levantada naquele momento de um quadro grave.
E foi nesse intervalo entre o susto e a resposta que algumas músicas inacabadas deixaram de poder esperar.
“Foi com essa cabeça, de medo de morrer, medo de sentir qualquer emoção que pudesse mexer com o coração, angústia e ansiedade, que eu peguei várias das músicas que estavam inacabadas, terminei e escrevi partituras pra se caso a notícia fosse ruim eu já tivesse deixado alguma coisinha por aqui”, relembra.
Há algo especialmente forte nessa imagem. Um músico diante da possibilidade da própria ausência tentando garantir que suas músicas não desaparecessem junto com ele. Terminar aquelas partituras deixou de ser apenas uma pendência artística. Era uma maneira de deixar alguma coisa no mundo.
O resultado dos exames, felizmente, afastou a suspeita de obstrução coronária. A vida pôde continuar normalmente, mas aquela madrugada já havia mexido no lugar das coisas.
“Foi um momento para reavaliar as decisões da vida, incluindo materializar esse projeto, trazendo essa queda para o disco, de uma forma paradoxal: um grande susto para reorganizar a vida toda e movimentar coisas muito boas”, explica Luca.
Despencando nasce justamente desse paradoxo. A queda que poderia representar interrupção acabou produzindo movimento.
Luca chega ao álbum carregando diferentes formações nas mãos. Sua experiência com o violão de sete cordas dentro do choro encontra a vivência jazzística da faculdade de música e o repertório do violão erudito latino-americano. A tradição está presente, mas não aparece como peça de museu. O músico reconhece o caminho aberto pelos grandes nomes do violão brasileiro e parte dele para procurar suas próprias curvas.
Gravado no primeiro semestre de 2026, no estúdio IMÃ Criação Musical, em São Paulo, Despencando teve produção musical de Swami Jr., que também assinou a gravação ao lado de Thiago Abdalla. Thiago ficou ainda responsável pela mixagem e masterização.
Fora do trabalho solo, Luca transita entre aulas, produção de trilhas para teatro e concertos, além de integrar Os Amanticidas e Choro da Quitanda. O álbum, no entanto, coloca o violão de sete cordas sozinho diante do ouvinte. Sem precisar esconder suas marcas, referências ou acidentes de percurso.
E há uma ironia bonita no fato de um disco chamado Despencando representar justamente o contrário de uma queda definitiva. Luca caiu. Depois levantou, voltou às músicas que estavam esperando por ele e terminou o que precisava terminar. Agora elas podem seguir sozinhas.
Despencando chegou às plataformas digitais em 4 de setembro. O lançamento também ganha apresentação na Casa de Francisca, em São Paulo, no dia 18 de setembro, às 21h, na Sala B.
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