Cinco discos nacionais de 2025 para escutar sem pressa; parte 1
- Marlons Silva
- 18 de jan.
- 5 min de leitura
Alguns discos não terminam quando o ano acaba

Listas de fim de ano costumam funcionar como um ponto final. Um fechamento apressado, quase protocolar, antes que o próximo ciclo comece. Mas alguns discos não respeitam essa lógica. Eles atravessam o calendário, resistem à ansiedade das redes e seguem pedindo atenção mesmo quando o ano já virou.
Os cinco álbuns reunidos aqui dizem muito sobre 2025 na música brasileira, mas dizem ainda mais sobre permanência. São trabalhos que crescem na escuta contínua, que não se esgotam na novidade e que encontram novos sentidos quando revisitados com calma.
Do shoegaze sensível de Curitiba ao pop ensolarado que celebra o prazer de ouvir música sem culpa, passando pelo amadurecimento do indie, pela força da canção brasileira contemporânea e por um rock que dialoga com o passado sem ficar preso a ele, esta é uma curadoria pessoal, assinada, que entende a música como experiência duradoura. Não é sobre correr atrás do tempo perdido. É sobre reconhecer discos que continuam vivos.
terraplana - natural

O shoegaze mais charmoso e irresistível atualmente vem de Curitiba. A cada registro sonoro, a cada show (como as históricas aberturas para Slowdive e Deafheaven), terraplana justifica porque está entre as bandas mais respeitadas no cenário alternativo nacional. 'natural' alterna beleza prodigiosa, vocais timidamente afetuosos e paisagens sonoras construídas harmoniosamente sobre o alicerce poderoso oferecido pelas guitarras que proporcionam o norte melódico para as letras que abordam as relações e o tempo, o vazio e as incertezas.
Canções como "amanhecer" e "horas iguais" são dois momentos que exemplificam a intensidade sedutora deste que é certamente um dos álbuns mais bonitos dos últimos anos.
Terno Rei - 'Nenhuma Estrela'

'Nenhuma Estrela' traz o amadurecimento artístico do quarteto paulista. Mais diverso e solto do que os álbuns anteriores, sem abandonar os elementos que caracterizam e definem o som do grupo. Terno Rei conecta o ouvinte a sensações que podem ir de encontro a certos espaços no cotidiano doido vivenciado nos asfaltos e concretos da urbanidade (São Paulo é tão parte deles quanto Brasília foi da Legião Urbana assim como a Manchester de Morrissey e Marr) ou mesmo na imersão introspectiva subordinada ao isolamento de um quarto.
Rock inglês e Clube da Esquina se unem espontaneamente sem qualquer estranhamento. Não por acaso, a faixa "Relógio" tem o gigantesco brilho estelar da participação de Lô Borges. Classe demais. Absurdo de lindo. Enfim, todas as estrelas para 'Nenhuma Estrela'.
Josyara - AVIA

O encantador canto de Juazeiro. Em AVIA, seu terceiro álbum, Josyara se posiciona como um dos nomes da nova música brasileira merecedores de maior atenção, considerando o cuidado, elegância e sofisticação aplicados nas dez faixas. A cantora, compositora, produtora e instrumentista baiana tem completo domínio e todo o conforto para flertar com o presente, algo observável nas participações de artistas como Liniker, Pitty e Chico Chico, sem deixar de reverenciar o rico legado histórico das grandes vozes femininas, absorvendo suas notórias influências e as direcionando para novos rumos que tendem a se abrir.
AVIA' transcorre leve, no seu tempo, carrega o ouvinte na sutileza harmônica lindamente concebida no desenrolar das canções. "Corredeiras", um dos destaques, traz a reflexão conciliada com a poesia, é sobre deixar o que é preciso para trás, sem culpa, e se permitir avançar, seguir, com fé e autonomia. Josyara está à vontade para trilhar direções e se firmar como notável força artística de sua geração.
Undo - Undo

Grata surpresa vinda à tona praticamente no fim de 2025, a estreia do Undo correu o risco de passar um tanto despercebida por grande parte da mídia e canais especializados. Sorte de quem se atentou e não deixou escapar a audição de um dos melhores discos do rock nacional do ano. O álbum homônimo do quinteto paulistano traz uma verdadeira reunião de músicos com bastante experiência e respeitável histórico de atividades no meio musical.
André Frateschi é o frontman, vocalista já bastante conhecido na cena, seja pelas homenagens a David Bowie pelos palcos, participação em reality show musical, desempenho como ator e na formação mais recente com os membros remanescentes da Legião Urbana. Além da ótima voz, é dono qualificado de carisma e performance. As belas e certeiras melodias lembram bastante, em diversos momentos, os ícones oitentistas do pós-punk (The Cure, The Smiths e a própria Legião). A guitarra de Johnny Monster ajuda a solidificar muito dessa essência vinculada à década de 80 e que ao mesmo tempo encontra o indie contemporâneo em muitas camadas.
Há canções que poderiam muito bem estar nas playlists das FMs ou mesmo em trilha sonora de novelas ou séries brasileiras, como a radiofônica "Melodrama". A Undo traz, sim, certa nostalgia, nos remete a tempos em que uma banda de nível semelhante, nesses moldes, atraía grande público, tinha hits tocando em qualquer lugar, garantindo o lugar do rock além das bolhas e das tribos, metendo os pés (e as guitarras) na porta dos espaços de aceitação mais - digamos - popular, de certa forma. Que fique evidente: é um trabalho que não ganhou luz para se limitar a associações ao passado.
O frescor aqui é perceptível e encontra lugar tranquilamente no que tem sido criado de mais relevante. Estamos no início de 2026 e, talvez por isso mesmo, um registro dessa qualidade se faz tão oportuno e preciso hoje. Reflete e muito nossas vivências nesses tempos recentes. Uma letra como a da bela "Porcos Não Olham pro Céu" diz muito do obscurantismo e das ameaças sombrias e tenebrosas que se propagaram de forma criminosa e vil na nossa sociedade, considerando a história recente.
As participações de nomes importantes do BRock como Leoni e Dado Villa-Lobos se encaixam perfeitamente no que o registro se propõe. Undo está aí para ser ouvido, apreciado hoje. Não há nada aqui de oportunismo datado, cheirando à naftalina. Sorte nossa que exista uma banda como essa atualmente.
Superafim - MOUTH (Deluxe)

Dois ex-integrantres do Cansei de Ser Sexy foram responsáveis por um dos álbuns mais divertidos, dançantes e despretensiosos do ano. 'MOUTH (Deluxe)' é resultado do encontro de amigos de longa data, parceiros que compartilham afinidades, experiências na carreira e que se reuniram nessa vigorosa colaboração que originou uma sucessão de faixas de inegável apelo pop, que podem tanto lembrar a new wave dos gigantes The B-52s, das adoráveis e eternas meninas do The Bangles ou o que há de mais impactante no novo synthpop e electro rock.
Sim, há ecos do CSS, afinal é algo que marca e preenche bastante a biografia artística de Adriano Cintra e Clara Lima. Os singles que vieram antes do lançamento do disco já deram uma amostra perfeita do que viria pela frente no restante das faixas. A grudenta "Sorry", um divertido relato sobre os lamentos que permeiam a culpa de um rompimento amoroso, tem o poder de incendiar as pistas mais descoladas e a programação das rádios alternativas mais espertas.
Puro hit. O vocal de Clara é um charme só, doce e provocante. Grande destaque também é a participação de Duda Beat na faixa de abertura, que dá nome ao álbum e de Marina Gasolina em "Let Me Go". Superafim (por sinal, título de uma das músicas do CSS) é perfeito para as manhãs ensolaradas de fim de semana, para as baladas noturnas espalhadas por aí ou para qualquer momento em que é fundamental se desligar da chatice diária que se impõe sem nossa vontade.
É pop honesto, indie com humor fino, melodias irreprimíveis e sacadas bem formuladas sobre relacionamentos e as (muitas) surpresas nem sempre digeríveis que eles trazem.










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