Cartola e "Preciso Me Encontrar": quando a procura vale mais do que a chegada
- Marcello Almeida
- há 10 horas
- 4 min de leitura
Entre a dúvida e a esperança, Cartola transformou a procura por si mesmo em arte eterna

Falar sobre "Preciso Me Encontrar" é navegar por uma jornada dentro de si mesmo e olhar, frente a frente, para as dúvidas, anseios, medos e as inúmeras perguntas que ficam pairando na alma como um tique-taque incessante.
Mas um ponto curioso dessa jornada é que, antes mesmo de encontrar qualquer resposta, existe um momento um tanto desconfortável que quase ninguém gosta de admitir: aquele momento em que percebemos que nos perdemos de nós mesmos.
É desse lugar que nasce "Preciso Me Encontrar". Uma música que carrega uma nostalgia agridoce, uma letra poética e honesta sobre a dúvida e a esperança. Composta por Candeia e eternizada na voz única do saudoso Cartola, a canção atravessou décadas porque fala justamente de algo que não pertence a uma época específica. Ela fala daquilo que a gente sente muitas vezes ao longo da vida: aquela sensação de que existe um desencontro entre aquilo que somos e aquilo que estamos vivendo.
E, sendo sincero, acredito que seja justamente esse lugar íntimo de cada um que a torne tão atual. Ela sempre tem algo a te dizer, não importa em que tempo você esteja. E tem algo interessante nessa narrativa: o sujeito da música não me parece ser um homem em busca de aventuras, e muito menos alguém perseguindo sonhos grandiosos. Eu vejo mais uma inquietação que nasce do silêncio, da solidão dos nossos dias.
Sabe aquele incômodo que vai crescendo por dentro? Pois é. Uma sensação difícil de explicar, mas fácil de reconhecer. Quem nunca acordou, em algum momento da vida, com a impressão de que estava ocupando o próprio corpo sem realmente habitar a própria existência?
Talvez isso bata tão forte dentro da gente porque é uma canção de frases simples. "Preciso me encontrar" é um verso quase cotidiano. Mas poucas frases carregam tanto peso. Sabe por quê? Ninguém procura aquilo que já possui.
Quando alguém diz que precisa se encontrar, está confessando uma ausência. Está admitindo uma ruptura. É o reconhecimento de que alguma parte importante ficou pelo caminho. E talvez seja justamente isso que torne a canção tão, singela, tão bonita. Ela não oferece as tais respostas. Não promete nada. Não apresenta sequer um destino. O personagem não sabe onde vai chegar. Apenas sabe que não pode continuar ali, parado.
Existe algo mais honesto do que isso? Veja a vida como anda nesses tempos de modernidade. Estamos cercados, constantemente, por uma pressão de provar que temos controle sobre a própria vida. Que saco! Como se fosse obrigatório saber quem se é, qual carreira seguir, qual propósito cumprir e como será esse tal futuro.
O contraste disso tudo é que a experiência da existência humana costuma ser muito diferente disso. Raramente a vida acontece ou funciona como se performa. Na maior parte do tempo, caminhamos no escuro, improvisando significados, colecionando dúvidas e tentando compreender quem somos enquanto seguimos vivendo.
De um lado, temos o mundo das certezas, das metas, dos discursos motivacionais e das apresentações de sucesso. Do outro, existe a vida, onde quase todo mundo está tentando descobrir as coisas enquanto as vive. Ninguém recebe um mapa. Ninguém entende tudo de uma única vez. E não tem nada de errado nisso. A maturidade não está em ter todas as respostas. Está em continuar caminhando mesmo sem elas.
Candeia captou essa fragilidade com uma sensibilidade impressionante. E então entra Cartola. A interpretação dele muda tudo. Não há desespero em sua voz. Não há revolta. Não há pressa. Existe algo ainda mais profundo, e é justamente aquilo de que mais gosto nessa canção: aceitação. Precisamos aprender a aceitar.
Cartola canta como quem entende que certas respostas só chegam com o tempo. Como quem aprendeu que a vida não é uma corrida para encontrar um sentido definitivo, mas um percurso de descobertas constantes. Sua voz parece carregar a sabedoria de quem já sofreu, já perdeu, já recomeçou inúmeras vezes e compreendeu que a busca faz parte da própria existência.
Por isso "Preciso Me Encontrar" nunca soa como uma música triste. Melancólica, talvez. Mas triste, não. Há esperança escondida entre esses versos. Porque admitir que estamos perdidos é também o primeiro passo para voltar a caminhar.
Talvez seja essa a grande força da canção. Ela não fala sobre chegar. Ela fala sobre partir. Sobre ter coragem de abandonar versões antigas de si mesmo. Sobre reconhecer que algumas respostas não estão nos lugares onde costumávamos procurar.
E sobre entender que, às vezes, o maior ato de coragem não é encontrar o caminho. É aceitar que ainda estamos procurando. Décadas depois, sigo ouvindo "Preciso Me Encontrar" porque a procura continua. Mudam os tempos. Mudam as cidades. Muda o rosto diante do espelho. Mas a busca, essa sempre permanece.
E enquanto houver alguém tentando compreender quem é em meio ao caos da vida, a voz de Cartola continuará ecoando como um companheiro silencioso de jornada. Não oferecendo respostas. Apenas lembrando que procurar também é uma forma de existir.
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