Billy Corgan chama uso de IA na música de “pacto com o diabo” e faz alerta direto à indústria
- Marcello Almeida

- 17 de abr.
- 3 min de leitura
Líder do Smashing Pumpkins critica avanço da inteligência artificial e defende o processo humano na criação artística

O avanço da inteligência artificial na música tem dividido opiniões, e Billy Corgan deixou claro de que lado está. Durante participação no podcast And the Writer Is…, o vocalista do Smashing Pumpkins fez um posicionamento contundente contra o uso da tecnologia na criação musical, tratando o tema não como uma tendência inevitável, mas como um risco direto à essência da arte.
Sem rodeios, Corgan foi categórico ao expor sua postura:
"Eu me recuso, me recuso, me recuso categoricamente a usar IA na minha criação musical."
Para ele, a questão não é técnica, mas quase filosófica, ou até espiritual.
“Para mim, é um pacto com o diabo. Simples assim. Seja o mito do fogo de Prometeu ou o que for, para mim, você está literalmente se entregando àquilo que vai te destruir. Ponto final.”
A crítica vai além do impacto tecnológico e toca no próprio processo criativo. Segundo o músico, muitas das dificuldades que artistas tentam contornar com a IA são, na verdade, parte essencial da construção artística. Ele defende que o desconforto, a dúvida e até o bloqueio criativo são elementos fundamentais da jornada de um compositor, afirmando que “a pressão, a inspiração, a busca interior, o 'não tenho certeza se tenho mais alguma coisa a dizer'” fazem “parte da jornada que um compositor precisa percorrer”.
Nesse sentido, Corgan reforça sua preferência por processos humanos e colaborativos. Para ele, a criação precisa de troca real, de presença, de imperfeição. “uma pessoa real, com sentimentos reais e sangue real correndo em suas veias” — é isso que ele busca ao trabalhar. E mesmo quando o debate envolve direitos autorais, ele enxerga valor na própria disputa:
"E talvez algum dia a gente discuta sobre a divisão dos direitos autorais. Mas se estamos discutindo, significa que há algo de valor em jogo."
A defesa do processo humano também passa pela incerteza. Para o artista, não saber exatamente o próximo passo é parte do que torna a música viva.
"É bom que um compositor não tenha certeza se ainda tem algo a dizer, é bom que um compositor tenha que pensar em um novo acorde que não havia imaginado. É daí que vem a mágica, e até que isso se prove o contrário, vou continuar no jogo em que estou."
O alerta, no entanto, não se limita ao campo artístico. Corgan amplia a discussão e aponta para possíveis consequências mais amplas do uso irrestrito da tecnologia.
“Estamos flertando com aquilo que nos destruirá como economia, como empresa, como movimento. Estamos pedindo para sermos erradicados. Estamos entregando nossas informações a eles. Eles já têm todas as nossas outras informações.”
A fala revela uma preocupação que extrapola a música e toca em questões estruturais da indústria e da sociedade.
Esse olhar crítico encontra eco em outros artistas. David Byrne, ex-líder do Talking Heads, também já comentou sobre o tema, afirmando que a inteligência artificial pode acabar “absorvendo o conhecimento humano”, embora reconheça seu potencial como uma ferramenta útil, ainda que limitada.
No fim das contas, a discussão proposta por Corgan não é apenas sobre tecnologia, mas sobre essência. Sobre o que se perde quando o processo deixa de ser humano. E, principalmente, sobre até que ponto a música ainda pode ser considerada expressão, quando já não vem de dentro.
Se a música nasce da imperfeição, talvez seja justamente isso que a inteligência artificial nunca consiga reproduzir.
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