Robert Smith completa 67 anos e segue provando que vulnerabilidade também é legado
- Marcello Almeida
- hĂĄ 13 horas
- 3 min de leitura
Tem gente que escreve mĂșsica. E tem gente que constrĂłi abrigo

Hoje Ă© aniversĂĄrio de Robert Smith. 67 anos. Uma lenda viva da mĂșsica. E, talvez, o mais impressionante nĂŁo seja a longevidade, mas a coerĂȘncia que ele carrega consigo. Num cenĂĄrio onde quase tudo muda por necessidade ou conveniĂȘncia, ele permaneceu fiel a uma coisa simples e, cada vez mais rara: sentir de verdade.
Quando o The Cure começa a ganhar forma no fim dos anos 70, o mundo ainda estava digerindo a ressaca do punk. Havia urgĂȘncia escorrendo, havia ruĂdo zumbindo, havia uma vontade quase desesperada de quebrar tudo, quem nunca, nĂ©? Mas Robert escolheu outro caminho. Em vez de gritar contra o mundo, ele decidiu olhar pra dentro. E isso mudou tudo, meus amigos â e como mudou.
Porque o que ele faz ali nĂŁo Ă© apenas mĂșsica, nunca foi. Ă algo mais denso, humano, Ă© introspecção transformada em linguagem pop. Se vocĂȘ pega a trajetĂłria da banda, dĂĄ pra ver uma evolução que nĂŁo Ă© apenas sonora, mas emocional. O minimalismo tenso de Three Imaginary Boys, a escuridĂŁo quase sufocante de Faith e Pornography⊠como nĂŁo amar isso tudo? Calma, ainda nem chegamos na poĂ©tica de Disintegration, meu Deus! Talvez seja o ponto mais alto dessa jornada. Ali nĂŁo tem filtro nenhum. NĂŁo contĂ©m ironia. Ă um disco que praticamente sangra, se Ă© que vocĂȘ me entende.
E, ainda assim, ele nunca ficou preso a um Ășnico registro. Como nĂŁo admirar esse homem dos cabelos despenteados?
Ao mesmo tempo que criava algo devastador como âPictures of Youâ, ele tambĂ©m entregava cançÔes como âJust Like Heavenâ, âLovesongâ, âFriday I'm In Loveâ e tantas outras que carregam uma leveza quase ingĂȘnua. E essa dualidade nĂŁo Ă© estratĂ©gia. Ă natureza. Porque a obra do Cure nunca tentou simplificar o ser humano. Ela abraça a contradição.
E talvez seja por isso que tanta gente se reconhece ali. Ele nunca tentou ser um sĂmbolo de força. Nunca quis vender a ideia de que estava tudo bem. Pelo contrĂĄrio. Ele normalizou o desconforto, a dĂșvida, a tristeza que nĂŁo tem explicação clara. E fez isso sem cair na autodestruição romantizada. Existe dor na mĂșsica do The Cure, mas tambĂ©m existe beleza. Existe um cuidado quase silencioso com quem estĂĄ ouvindo. E isso Ă© raro.
Porque Ă© fĂĄcil fazer mĂșsica triste. DifĂcil Ă© fazer mĂșsica que acolhe, que abraça e te entende como ninguĂ©m.
Ao longo das dĂ©cadas, ele poderia ter seguido o caminho mais previsĂvel. Poderia ter se moldado ao mercado, suavizado arestas, se reinventado pra continuar relevante. Mas a verdade Ă© que Robert nunca pareceu interessado em relevĂąncia no sentido tradicional da coisa. E talvez por isso nunca tenha deixado de ser relevante de verdade.
Ele virou referĂȘncia sem tentar ser referĂȘncia. Influenciou geraçÔes inteiras, do rock alternativo ao indie, do emo ao dream pop, nĂŁo sĂł pelo som, mas pela liberdade emocional que abriu. Existe um antes e um depois de The Cure quando se fala em como a mĂșsica pode lidar com sentimentos mais complexos sem perder comunicação com o pĂșblico.
E aos 67 anos, ele continua ali. Com o mesmo cabelo desalinhado, o mesmo olhar meio deslocado, a mesma honestidade quase desconcertante. Sem grandes discursos, sem pose de lenda, sem precisar reafirmar o prĂłprio tamanho. SĂł existindo. E talvez seja isso que faz dele tĂŁo essencial.
Num mundo cada vez mais performĂĄtico, onde atĂ© a dor vira conteĂșdo, Robert Smith ainda soa real. Ainda soa humano. Ainda soa necessĂĄrio. Porque no fim, mais do que trilha sonora, o que ele construiu foi um espaço.Um lugar onde sentir nunca foi fraqueza. E onde, mesmo depois de tanto tempo, a gente ainda encontra abrigo.
Obrigado Man.
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