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A Sala dos Professores é uma parábola inteligente sobre os problemas do nosso cotidiano

"Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo." (Paulo Freire)

Leonie Benesch em uma cena do filme A Sala dos Professores
Imagem: Reprodução.


Pense na complexidade de ser professor hoje em dia, que vai desde encarar uma sala de aula e manter tudo sob controle, até lidar com problemas relacionados a política, cultura racial, preconceitos, fake news, achismos e julgamentos. Tente canalizar tudo isso em um ambiente tóxico onde uma simples palavra pode ganhar dimensões gigantescas. E você começará a ter uma dimensão do que vai encontrar na narrativa de A Sala dos Professores (Das Lehrerzimmer), do cineasta Ilker Çatak, filme alemão que concorre na categoria do Oscar de Melhor Filme Internacional neste domingo.


É como se o longa canalizasse todos os problemas do cotidiano e jogasse todos eles em um único ambiente: a sala dos professores. A trama discorre sobre Carla Nowak (Leonie Benesch), uma professora polonesa de educação física e matemática. Ela se destaca entre os novos funcionários por seu idealismo, mas quando um de seus alunos é acusado de roubo, Carla tenta resolver e investigar a situação sozinha. Acaba entrando em um ciclo onde pais revoltados, alunos agressivos e colegas teimosos a levam a um estresse psicológico tremendo, onde a todo instante ela é confrontada pelas estruturas do sistema escolar. Uma série de decisões errôneas são tomadas a partir daí, que irão deixar a situação ainda mais problemática e intensa.



Çatak usa todos esses temas e o ambiente escolar para discorrer sobre os problemas que encontramos no nosso dia a dia, a sala dos professores do filme pode muito bem ser o espelho de muitos outros ambientes estressantes, corrosivos e tóxicos. O filme nada mais é do que uma parábola inteligente sobre o mundo moderno e suas tecnologias disponíveis na palma de nossas mãos. Muito da trama remete a outra obra impactante que também trata desses assuntos escolares, o poderoso A Caça de 2012.



A trama de A Sala dos Professores pode até parecer simples e já muito explorada por outros filmes, mas tudo no longa é muito enxuto: desde o roteiro até o desenrolar da trama. Tudo acontece em uma velocidade baseada no suspense, thriller e aquele terror psicológico voltado para uma atmosfera paranoica e até mesmo claustrofóbica. Os enquadramentos de câmera, atentos aos detalhes e aos movimentos de Carla, deixam tudo ainda mais inquietante. O roteiro, produzido por Çatak e Johannes Duncker, vai deixando pontas soltas propositalmente, justamente para promover o debate dos temas elencados pela narrativa. Isso ajuda a intensificar ainda mais o efeito impactante do filme sobre o espectador, que nas horas de tensão faz um uso certeiro da trilha sonora deixando tudo mais tenso e perturbador.


Aqui, a escolha acertada de focar o filme nas ações da professora se mostra essencial, mas, por si só, isso não seria suficiente para sustentar a trama. É aí que entram os demais personagens: alunos, pais, a diretora e os outros professores, que fornecem o alicerce necessário para o desenvolvimento da história. São 1h e 34 minutos capazes de prender a atenção do espectador na tela.


A trama se desenrola através dos olhares tanto de Carla quanto dos seus colegas, dos alunos e da diretora, que tenta sempre seguir o sistema educacional. Essas diferentes visões ajudam a problematizar ainda mais o emaranhado de confusão pelo qual a trama vai se desenrolando, sustentando que nem tudo que acontece no ambiente de trabalho (aqui, no caso, a sala dos professores) fica entre as quatro paredes.



Entre os personagens secundários, destaca-se o aluno Oscar, interpretado de maneira impressionante pelo ator mirim Leonard Stettnisch, que se vê prejudicado pelas ações da professora. O garoto transmite com êxito sua angústia e aflição ao longo da trama, tornando-se um dos elementos que agravam a situação de Carla, mergulhando-a ainda mais no abismo das consequências de seus atos, os quais ameaçam destruí-la psicologicamente.


É essencial também destacar a atuação impactante de Leonie Benesch, que de forma magistral consegue transmitir, de maneira realista, o impacto e o peso de suas decisões, seja através de movimentos, gestos ou daquele olhar profundo que diz sem palavras: "Em que situação me envolvi?" Sabe aquele ditado que afirma que "toda ação e decisão gera uma consequência"? Pois bem, às vezes, o preço a pagar se torna muito alto. Há um ditado popular que ilustra bem essa situação: "Quanto mais se mexe na bosta, mais ela fede."



A Sala dos Professores é uma obra necessária para a nossa atual realidade: um filme reflexivo que aborda as diversas dificuldades enfrentadas pelos professores e os desafios de conviver em um ambiente tóxico. Tudo isso é entrelaçado nas entrelinhas, utilizando o roubo dentro da escola como pano de fundo para destacar uma série de problemas enfrentados diariamente por professores, incluindo julgamentos precipitados, suposições infundadas e a propagação de fake news com velocidade impressionante.


Uma obra fundamental para trazer à tona os problemas contemporâneos do nosso cotidiano, estimulando debates e reflexões; um convite a você, espectador, a refletir sobre os aspectos levantados pelo filme e como se comporta o ensino educacional hoje. No fundo, A Sala dos Professores está nos dizendo algo sobre uma metodologia: de tentar encontrar a melhor solução quando, na verdade, não existem soluções perfeitas. É sobre a linha tênue entre seguir ordens e fazer a coisa certa.

 

A Sala dos Professores

Das Lehrerzimmer


Ano: 2023

Gênero: Drama, Thriller

Direção: Ilker Çatak

Roteiro: Ilker Çatak,  Johannes Duncker

Elenco: Leonie Benesch, Leonard Stettnisch

País: Alemanha

Duração: 98 min


 

NOTA DO CRÍTICO: 8,0

 

Trailer:



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