A música que Paul McCartney gostaria de apagar da própria história
- Marcello Almeida
- há 17 horas
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Nem “Ebony and Ivory” nem “Fuh You”: para o ex-Beatle, existe uma canção que representa seu ponto mais baixo

Com mais de mil composições no currículo, Paul McCartney construiu uma das obras mais consistentes e influentes da história da música. Mas nem mesmo alguém desse tamanho passa ileso por toda a própria discografia. Em algum momento, inevitavelmente, surgem escolhas duvidosas, experimentos que não funcionam, músicas que escapam do estúdio quando talvez devessem ter ficado lá.
Isso vale para qualquer um, de Bob Dylan a David Bowie. A diferença é que, no caso de McCartney, o nível de exigência sempre foi tão alto que até seus erros parecem maiores do que realmente são.
E existe um em especial que o próprio autor nunca conseguiu engolir. Curiosamente, não são as músicas mais criticadas pelo público que ocupam esse lugar. Faixas como “Ebony and Ivory” ou “Fuh You” até entram na lista das menos queridas, mas nenhuma delas chega perto da que McCartney considera, sem rodeios, a pior que já escreveu: “Bip Bop”.
Lançada em 1971 no álbum Wild Life, do Wings, a música nasceu em um momento delicado. Os Beatles tinham acabado, e McCartney ainda estava entendendo como existir fora daquela engrenagem coletiva. Havia liberdade, mas também ausência de filtro. E isso faz diferença.
Durante anos, ele esteve cercado por músicos que não tinham problema em confrontar ideias. No pós-Beatles, esse equilíbrio se perdeu um pouco. “Bip Bop” é quase um símbolo disso: uma música que, talvez, não teria passado pelo crivo rigoroso de antes.
Musicalmente, ela até funciona de forma leve, quase despretensiosa. Mas a letra, repetitiva, simplista, quase infantil, sempre soou como um ponto fora da curva. O próprio McCartney reconhece isso sem tentar suavizar. Quando questionado sobre sua pior canção durante uma entrevista à revista Q em 2015 , ele respondeu: "'Bip Bop' .
"'Bip Bop' . A letra é horrível”.
O ex-Beatle foi ainda mais longe em sua análise contundente da música do Wings, acrescentando:
"Eu sempre odiei essa música."
E o mais curioso é que ele já sabia disso desde o começo. Mesmo assim, deixou a música seguir. Em parte, porque ouviu de pessoas próximas que havia algo ali. O produtor Trevor Horn, por exemplo, chegou a elogiar a faixa. Isso foi suficiente para gerar dúvida: se alguém via valor, talvez ele estivesse sendo duro demais consigo mesmo. Mas não estava.
Com o tempo, “Bip Bop” passou a incomodar não só como uma música fraca, mas como um possível símbolo errado de sua trajetória. Em certo momento, McCartney chegou a temer que sua obra fosse analisada sem contexto, que canções como “Yesterday” ou “Here, There and Everywhere” fossem colocadas no mesmo plano que algo tão menor.
Para alguém com esse histórico, o incômodo não é sobre uma música ruim. É sobre padrão. No fim, “Bip Bop” não virou clássico cult, nem ganhou reavaliação generosa.
Ficou onde provavelmente sempre deveria ter ficado: como uma curiosidade menor dentro de um catálogo gigantesco. Quase um detalhe. Mas o fato de McCartney ainda falar sobre ela diz muito. Não sobre a música em si, mas sobre o tipo de artista que ele é. Alguém que, mesmo depois de mudar a história da música, ainda se incomoda com aquilo que ficou aquém do próprio nível.
E talvez seja justamente isso que o mantém relevante.
Não é o erro que define um gênio, é o quanto ele se recusa a aceitá-lo.






