A música que fazia John Lennon se sentir constrangido ao cantar
- Marcello Almeida

- há 21 horas
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“Twist and Shout” ajudou a transformar a voz de Lennon em uma força visceral nos primeiros anos dos Beatles, mas o próprio músico admitiu que cantar o clássico diante de artistas negros lhe causava desconforto

Poucas gravações capturam John Lennon de maneira tão física quanto “Twist and Shout”. Não é apenas uma interpretação vigorosa. Há algo naquela voz rouca, rasgada e aparentemente próxima do limite que faz a música soar como se os Beatles estivessem tentando derrubar as paredes do estúdio. Décadas depois, é difícil imaginar a fase inicial do grupo sem aqueles dois minutos e meio de puro rock and roll.
Curiosamente, uma das performances mais celebradas de Lennon também carregava certo desconforto para o músico.
“Twist and Shout” não nasceu com os Beatles. Escrita por Phil Medley e Bert Berns, a canção foi gravada originalmente pelos Top Notes em 1961, antes de encontrar sua forma mais influente nas mãos dos Isley Brothers. Lançada pelo trio em 1962, essa interpretação levou a música ao Top 20 da Billboard e se tornou a principal referência para a versão que os quatro rapazes de Liverpool levariam ao estúdio no ano seguinte.
A relação dos Beatles com repertório americano, porém, era muito maior do que uma única canção. Antes de Lennon e Paul McCartney construírem um dos catálogos autorais mais importantes da música popular, o grupo se formou tocando material de outros artistas. Chuck Berry, Little Richard, Buddy Holly, Carl Perkins, Elvis Presley, grupos vocais e artistas de R&B faziam parte daquele aprendizado.
Era também uma geração de jovens músicos britânicos descobrindo uma linguagem que havia sido profundamente moldada pela música negra americana. Para Lennon, aquilo não era um detalhe distante da história do rock. Era algo que ele reconhecia.
Por isso, a faixa provocava nele uma reação peculiar quando os Beatles dividiam o palco com artistas negros.
“Detesto cantar ‘Twist and Shout’ quando há um artista negro no palco conosco”, admitiu Lennon certa vez, acrescentando que se sentia constrangido porque acreditava que eles poderiam cantar a música muito melhor do que ele.
A declaração ganha outra dimensão quando lembramos justamente dos Isley Brothers. Os Beatles não esconderam a origem de sua inspiração: foi a interpretação do trio americano que forneceu a espinha dorsal para a leitura que Lennon, McCartney, George Harrison e Ringo Starr transformariam em um dos momentos definitivos de Please Please Me.
Mas, se Lennon tinha reservas sobre sua capacidade de fazer justiça à música, a gravação deixada pelos Beatles conta uma história extraordinária.
Em 11 de fevereiro de 1963, o grupo entrou nos estúdios da EMI, em Londres, para uma sessão que atravessaria o dia. A música foi deliberadamente deixada para o final porque todos sabiam o que a canção exigiria da garganta de Lennon. Segundo Paul McCartney, o companheiro passou o dia recorrendo a pastilhas e sabia que cantar aquela faixa poderia acabar com o que ainda restava de sua voz.
E foi praticamente isso que aconteceu. Lennon chegou ao microfone já desgastado pela longa jornada de gravação. Em vez de esconder essa fragilidade, a música parece absorvê-la. A aspereza da garganta se torna parte da interpretação. A voz quebra, arranha e avança sobre a instrumentação enquanto McCartney e Harrison respondem aos vocais e a banda acelera em direção ao clímax.
O que deveria ser uma limitação acabou se tornando parte essencial do disco. A versão definitiva saiu praticamente de uma única tentativa. O próprio site oficial dos Beatles registra que o vocal foi captado em um take no encerramento daquela maratona de 11 de fevereiro. Houve uma tentativa posterior, mas Lennon já não tinha voz suficiente para repetir o feito.
Anos mais tarde, ele reconheceria que inicialmente não gostava do resultado porque acreditava ser capaz de cantar melhor. Com o tempo, passou a enxergar aquela gravação de outra maneira: não como uma interpretação perfeita, mas como o registro de alguém levando a própria voz até onde ela conseguia chegar.
Talvez seja justamente aí que a música encontre sua força. Tecnicamente, Lennon poderia ter cantado melhor em outro dia. Poderia estar descansado, com a garganta em condições ideais e maior controle sobre cada nota. Mas provavelmente não teríamos aquela gravação. O desgaste que deveria prejudicá-la acabou deixando uma cicatriz sonora impossível de fabricar deliberadamente.
A canção ainda revelou algo sobre a própria formação dos Beatles. Antes de ampliarem os limites do estúdio, experimentarem novas formas de composição e ajudarem a mudar a linguagem do pop durante os anos seguintes, eles eram quatro músicos fascinados pelos discos que chegavam dos Estados Unidos. Tocavam aquelas músicas, desmontavam seus arranjos e aprendiam dentro delas.
“Twist and Shout” é um dos exemplos mais intensos desse processo. Os Beatles partiram da leitura dos Isley Brothers e adaptaram sua energia ao formato de guitarras, baixo e bateria que haviam desenvolvido depois de incontáveis horas tocando ao vivo.
Lennon sabia de onde aquela força vinha. Seu constrangimento ao interpretar a música diante de artistas negros revela, acima de tudo, uma consciência das raízes que alimentavam aquilo que ele cantava.
A ironia é que sua insegurança não impediu que acontecesse algo raro. A canção continuou pertencendo à história dos Isley Brothers e à tradição do R&B que a moldou, mas aquela voz destruída no fim de uma sessão em Londres também passou a fazer parte de sua memória.
John Lennon achava que outros poderiam cantá-la melhor. Naquela noite de fevereiro de 1963, porém, ninguém poderia cantá-la exatamente como ele.
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