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A música mais doce de John Lennon surpreendeu até Paul McCartney

“Good Night”, cantada por Ringo Starr no Álbum Branco, revelou um Lennon muito diferente da imagem que o mundo conhecia

John Lennon e Paul McCartney
Foto por Linda McCartney / @PaulMcCartney

Sempre existiu uma dinâmica muito clara dentro da parceria entre John Lennon e Paul McCartney, e isso ficava bem claro na relação entre eles. Enquanto Paul McCartney parecia naturalmente inclinado à melodia mais voltada para o lado sentimental, para o romantismo e aquelas composições mais calorosas, já Lennon assumia um papel mais oposto: mais ácido, mais cru, mais cínico, para dizer a verdade.


Claro, que essa divisão nunca foi absoluta. Basta ouvir músicas como “Helter Skelter” ou “Oh! Darling” para perceber que McCartney também sabia mergulhar no caos e no peso quando queria. Da mesma forma, Lennon sempre carregou uma sensibilidade enorme dentro de si. A diferença é que ele raramente deixava isso totalmente exposto.





Conforme os Beatles começaram a evoluir musicalmente, John passou a rejeitar aquelas fórmulas mais simples que predominaram no começo da carreira da banda. Depois de Revolver, principalmente, ele parecia bem mais interessado em expandir os limites do que uma música dos Beatles poderia ser.


E talvez nenhum disco represente melhor essa liberdade criativa do que The Beatles — o lendário Álbum Branco. Esse é caótico, irregular, uma obra que te puxa pra dentro da narrativa, um álbum brilhante e completamente imprevisível. O trabalho permitia que cada integrante explorasse seus impulsos criativos, até aqueles mais pessoais. John adorava justamente isso: a sensação de humanidade imperfeita atravessando o álbum inteiro.


Ali conviviam experimentos sonoros desconfortáveis como “Revolution 9”, sarcasmo psicodélico em “Glass Onion” e, de forma quase inacreditável, uma delicadíssima canção de ninar chamada “Good Night”. E foi justamente essa música que deixou McCartney impressionado. Anos depois, Paul comentou:


“John a escreveu, principalmente. É uma música dele, o que é surpreendente vindo do John, porque ele normalmente não escreve esse tipo de música.”


Na sequência, completou:


“É uma música muito doce, e Ringo a canta muito bem, eu acho. O arranjo foi feito por George Martin, porque ele é muito bom nesse tipo de arranjo, sabe? Arranjos muito exuberantes e doces.”



A escolha de Ringo para interpretar a faixa também faz sentido dentro desse contexto. Com orquestrações grandiosas assinadas por George Martin, “Good Night” talvez soasse sentimental demais para o próprio Lennon cantar confortavelmente naquela época. Especialmente considerando que ele ainda carregava a imagem do Beatle mais confrontador e emocionalmente fechado.


Mas existe justamente algo fascinante nisso. Porque a canção desmonta completamente a caricatura de Lennon como alguém incapaz de demonstrar ternura sem ironia. A música surge logo depois do colapso sonoro de “Revolution 9” e funciona quase como um abraço depois de um pesadelo. Uma despedida suave, vulnerável e inesperadamente afetuosa.


E talvez seja exatamente por isso que ela envelheceu tão bem. Porque por trás de toda a agressividade artística, Lennon sempre foi alguém profundamente emocional. Só não gostava muito que percebessem isso.


No fim, talvez as músicas mais bonitas de John Lennon sejam justamente aquelas em que ele abaixava a guarda sem perceber.



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