A música esquecida que Paul McCartney ama e quase ninguém entende
- Marcello Almeida
- há 23 horas
- 3 min de leitura
A escolha improvável revela um lado pouco comentado do ex-Beatle: sua eterna fascinação por canções capazes de alcançar o grande público

Existe uma ideia recorrente sobre Paul McCartney que costuma simplificar demais sua trajetória. A de que ele seria o Beatle mais acessível, o compositor naturalmente voltado para melodias populares enquanto outros buscavam caminhos mais experimentais. A realidade, como quase sempre acontece quando falamos dos Beatles, é mais complexa.
McCartney ajudou a criar algumas das obras mais ousadas da música pop do século XX. Seu nome está ligado a canções como "Eleanor Rigby", "Helter Skelter" e "Tomorrow Never Knows", músicas que desafiaram convenções e ampliaram as possibilidades do pop. Ainda assim, existe outro lado de sua personalidade artística que nunca desapareceu: sua profunda admiração por canções simples, diretas e capazes de estabelecer uma conexão imediata com o ouvinte.
Talvez nenhuma história revele isso tão claramente quanto sua inesperada paixão por "The Way", do cantor e compositor neozelandês Glenn Aitken.
A canção apareceu em uma lista de favoritas compilada por McCartney para a revista Uncut em 2004. A escolha causou estranheza justamente porque "The Way" estava longe de ser uma obra celebrada pela crítica ou um clássico reconhecido da música pop. Pelo contrário. Era uma faixa discreta, construída sobre uma estética acústica acessível e uma abordagem melódica que muitos considerariam excessivamente sentimental.
A inclusão da música ganhou ainda mais curiosidade porque o próprio McCartney já demonstrou consciência de como obras menores podem influenciar a percepção de um legado artístico.
Em Conversations with McCartney, ele refletiu sobre uma preocupação que carregava em relação à sua produção pós-Beatles.
"Essa é a minha teoria, que daqui a alguns anos, as pessoas podem acabar olhando para toda a minha obra em vez de considerá-la no contexto posterior aos Beatles. Esse é o perigo, já que tudo começou com 'Here, There and Everywhere', 'Yesterday', 'Fool on the Hill', e chegou a 'Bip Bop', que é uma cançãozinha tão insignificante."
A fala de Macca é fascinante porque mostra um artista plenamente consciente das diferenças entre suas maiores realizações e alguns de seus trabalhos mais leves. Ainda assim, sua admiração por músicas acessíveis jamais desapareceu.
No caso de Glenn Aitken, essa admiração foi além de um simples elogio. O músico revelou anos depois que McCartney chegou a oferecer apoio concreto para sua carreira.
“Paul me disse: 'Olha, se você quiser vir para o Reino Unido, eu o contratarei para minha editora e darei visibilidade ao seu trabalho, apenas para ajudar a abrir portas e fazer com que sua música seja ouvida por aqueles que precisam ouvi-la.' Ele foi extremamente fiel à sua palavra.”
A história ajuda a iluminar uma característica fundamental da visão artística de McCartney. Ao contrário de muitos músicos que enxergam popularidade e arte como conceitos opostos, ele sempre acreditou que uma canção pode ser sofisticada e acessível ao mesmo tempo.
Essa perspectiva o diferencia até mesmo de alguns contemporâneos.
Recentemente, por exemplo, McCartney comentou sobre a postura de Bob Dylan em seus shows, observando a diferença entre um artista que frequentemente ignora expectativas do público e alguém que sente prazer em tocar músicas que as pessoas querem ouvir.
Isso não significa que McCartney tenha construído sua carreira apenas buscando aprovação popular. Sua trajetória prova exatamente o contrário. Poucos artistas arriscaram tanto dentro do universo do pop quanto ele. Mas existe uma diferença importante entre desafiar o público e desprezar a conexão com ele.
Talvez seja por isso que escolhas como "The Way" façam sentido dentro de sua lógica pessoal. Não porque a música seja necessariamente uma obra-prima escondida. Mas porque ela representa algo que McCartney sempre valorizou: a capacidade de uma melodia atravessar barreiras e encontrar alguém do outro lado.
É uma filosofia que o acompanha desde Liverpool. Desde os dias em que os Beatles disputavam a atenção de clubes lotados até os estádios que continua enchendo décadas depois.
No fim das contas, o gosto de Paul McCartney nem sempre precisa ser impecável para ser revelador. Às vezes, uma escolha aparentemente estranha diz mais sobre um artista do que suas seleções mais óbvias. E, nesse caso, ela reforça uma verdade que atravessa toda a sua carreira: por mais longe que tenha levado a música popular, McCartney nunca deixou de acreditar no poder simples de uma boa canção pop.
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