A catarse emocional do Deftones no Lolla virou uma experiência coletiva
- Marcello Almeida
- há 11 horas
- 3 min de leitura
Tem shows que você assiste. E tem shows que te atravessam

O Deftones, ontem no Lolla, não fez só uma apresentação, fez um desses raros momentos em que a música deixa de ser entretenimento e vira experiência física, quase espiritual. A banda comandada por Chino abriu o show com uma pedrada, Be Quiet and Drive (Far Away), e, de imediato, colocou toa a galera no clima. E aquilo foi menos sobre tocar músicas e mais sobre instaurar um clima, um peso, uma catarse coletiva que tomou o Autódromo como se aquele espaço tivesse sido feito pra eles.
E talvez tenha sido mesmo.
Desde os primeiros acordes, ficou claro que não era só mais um nome grande no line-up. Era outra coisa. Uma densidade diferente no ar. O som vinha pesado, mas nunca bruto por ser bruto. Era aquele peso emocional, denso, que a banda sempre soube construir como poucos, guitarras que esmagam e, ao mesmo tempo, abraçam. Coisa linda ver My Mind Is a Mountain explodir no palco Samsung Galaxy.
Chino Moreno entrou em cena como quem não precisa provar mais nada. E isso faz toda a diferença.
A voz, claro, não é a mesma de décadas atrás. O tempo cobra. Mas o que ele entrega hoje é outra camada. Menos técnica, mais verdade. Menos alcance, mais presença. E quando ele se joga nas músicas, quando ele fecha os olhos e se deixa levar, você entende que não é sobre perfeição, é sobre entrega. E nisso, ele continua sendo absurdo. locked Club, Diamond Eyes provam isso na pele e na euforia que tomou conta do festival.
Tem algo quase hipnótico na forma como ele conduz o show. Não é um frontman que grita com o público o tempo todo. Ele puxa pela atmosfera. E a banda acompanha com uma precisão quase cirúrgica. Cada dinâmica, cada explosão, cada momento de respiro é calculado, mas nunca soa mecânico, entende?
Soa vivo.
E foi aí que o Deftones ganhou o festival pra si.

Não importava que antes tivesse tido Interpol, com toda sua elegância fria e minimalista. Não importava que depois viria Sabrina Carpenter, com todo o apelo pop e a comoção massiva. Ontem, naquele recorte específico da noite, o Lollapalooza pertenceu ao Deftones.
Porque poucos conseguem fazer o que eles fizeram ali: transformar um palco gigante em algo íntimo. Fazer milhares de pessoas parecerem uma só. Criar aquele tipo de conexão em que você olha ao redor e percebe que todo mundo está sentindo a mesma coisa, ainda que cada um à sua maneira. Eu confesso que queria ver i Think About You All the Time, senti falta dela ali, mas teve milk of the Madonna, infinite Source, enfim…
E quando o show foi chegando ao fim, ficou aquela sensação que só os grandes shows deixam, não de encerramento, mas de esvaziamento. Como se algo tivesse sido liberado ali. Como se todo mundo tivesse deixado um pedaço de si naquele espaço.
Catártico. E não é uma palavra usada à toa. Porque no meio de um festival feito de estímulos rápidos, trocas constantes e atenção fragmentada, o Deftones fez o oposto: fez o tempo desacelerar. Fez as pessoas permanecerem. Sentirem.
E isso, hoje, é raríssimo. No fim das contas, não foi só o melhor show da noite. Foi aquele tipo de apresentação que justifica um festival inteiro. Claro, ainda tem Turnstile vindo aí.
Divirtam-se, curtam o festival, sintam a energia da música.
Setlist do show do Deftones no LollaBR
Be Quiet and Drive (Far Away)
my mind is a mountain
locked club
Diamond Eyes
Rocket Skates
Sextape
Swerve City
Rosemary
ecdysis
Headup
infinite source
Hole in the Earth
Change (In the House of Flies)
Genesis
milk of the madonna
Cherry Waves
My Own Summer (Shove It)
7 Words






