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'(What's The Story) Morning Glory?': o disco do Oasis que transformou nostalgia em permanĂȘncia

O clĂĄssico lançado em 1995 sobreviveu ao britpop, Ă s rivalidades e Ă s mudanças da indĂșstria musical para continuar dialogando com diferentes geraçÔes.

Oasis, Liam Galalgher e Noel Gallagher
Foto: Simon Emmett

Alguns discos envelhecem. Outros encontram novas formas de permanecer vivos.


Quando o Oasis lançou (What's The Story) Morning Glory?, em outubro do longĂ­nquo ano de 95, a banda jĂĄ era um dos nomes mais falados da mĂșsica britĂąnica. Isso devido ao sucesso de Definitely Maybe, que colocou Liam e Noel Gallagher no centro de uma cena que buscava recuperar o protagonismo e, podemos dizer, a autoestima do rock inglĂȘs apĂłs anos de domĂ­nio do mercado americano. Mas ninguĂ©m poderia prever que aquele segundo ĂĄlbum ultrapassaria os limites do britpop e se transformaria em uma das obras mais importantes da cultura pop contemporĂąnea.




E falando de anos 90, esse foi um perĂ­odo fĂ©rtil para a mĂșsica, mas tambĂ©m marcado por uma disputa, digamos, simbĂłlica, entre diferentes visĂ”es de mundo dentro da mĂșsica. Enquanto o grunge traduzia desencanto, frustração e isolamento, o britpop apostava em melodias ensolaradas, orgulho cultural e uma renovada confiança na identidade britĂąnica. Oasis, Blur, Pulp e Stone Roses ajudaram a conduzir esse movimento, mas foi o disco dos irmĂŁos Gallagher que acabou se tornando uma espĂ©cie de retrato definitivo daquele momento.


Muito disso pode ser explicado pela maneira como o disco dialogava com o passado sem parecer preso a ele. As influĂȘncias dos Beatles, dos Rolling Stones e de outros nomes do rock britĂąnico estĂŁo espalhadas por toda a sua estrutura, mas nunca soam como uma mera reverĂȘncia. Noel Gallagher encontrou uma maneira de transformar essas referĂȘncias em cançÔes acessĂ­veis, emotivas e capazes de estabelecer uma conexĂŁo imediata com o pĂșblico. Era mĂșsica feita para ser cantada em quartos, carros, bares e estĂĄdios.


A produção carimbada por Noel ao lado de Owen Morris ajudou a consolidar muito bem essa identidade. As guitarras densas, os refrÔes grandiosos e grudentos e os vocais carregados de pura personalidade criaram uma sonoridade que parecia feita sob medida para permanecer na memória coletiva. E permaneceu. Faixas como "Hello", "Some Might Say" e "Hey Now!" capturam perfeitamente a energia de uma banda que acreditava não haver limites para suas ambiçÔes, e o tempo provou isso.


Mas o que realmente manteve (What's The Story) Morning Glory? vivo ao longo das Ășltimas trĂȘs dĂ©cadas talvez esteja em outro lugar. O ĂĄlbum encontrou um equilĂ­brio raro entre euforia e melancolia. "Wonderwall" e "Don't Look Back in Anger" se tornaram clĂĄssicos nĂŁo apenas pela força de suas melodias, mas porque falam de sentimentos universais. SĂŁo mĂșsicas que atravessam geraçÔes porque continuam oferecendo abrigo para emoçÔes que nĂŁo pertencem a uma Ă©poca especĂ­fica.





Nesse sentido, o disco envelheceu de maneira curiosa. Muitas das discussĂ”es que cercavam o Oasis nos anos 90 perderam relevĂąncia com o passar do tempo. A famosa rivalidade com o Blur, que dominou manchetes e programas de televisĂŁo, hoje ocupa um papel secundĂĄrio na histĂłria. O que permaneceu foram as cançÔes. Enquanto as polĂȘmicas ficaram presas ao contexto de seu lançamento, mĂșsicas como "Champagne Supernova" continuaram encontrando novos ouvintes e novos significados.


Talvez seja por isso que o retorno do Oasis aos palcos tenha provocado uma reação tĂŁo intensa ao redor do mundo. Quando a banda voltou a se apresentar e passou pelo Brasil durante a aguardada reuniĂŁo dos irmĂŁos Gallagher, ficou evidente que aquelas mĂșsicas jĂĄ nĂŁo pertenciam apenas Ă  geração que as viu nascer. Nos shows, fĂŁs que acompanharam o auge do britpop dividiram espaço com jovens que descobriram o grupo dĂ©cadas depois, todos cantando os mesmos refrĂ”es com a mesma convicção.



Poucos ålbuns conseguem atravessar tanto tempo sem perder sua capacidade de comunicação. (What's The Story) Morning Glory? permanece relevante porque nunca dependeu exclusivamente do contexto que o consagrou. Embora seja um dos símbolos måximos do britpop, sua verdadeira força sempre esteve nas emoçÔes que carrega.


Quase trinta e um anos depois, ele continua sendo um disco sobre sonhos, dĂșvidas, esperança e memĂłria. E talvez seja justamente por isso que ainda encontre espaço em um mundo tĂŁo diferente daquele que existia em 95.


⭐⭐⭐⭐⭐

O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

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