'WE' conecta os pontos entre tudo que o Arcade Fire já fez



“Foda-se a perfeição”, diz o vocalista Win Butler. “A perfeição é chata”


O sentimento de representatividade ganha asas para voar através de canções intimas e verdadeiras que te fazem mergulhar em suas memórias mais profundas e refletir sobre tudo o que já enfrentamos e mesmo assim, continuamos seguindo, resistindo e lutando com aquele brilho de esperança em dias melhores.


‘WE’ sexto álbum de estúdio do Arcade Fire, pode muito bem ser o disco que até agora define melhor nossos tempos de intolerância, incertezas e superestimulação nas redes sociais. Um trabalho fruto de um mundo doente e pandêmico, que foi buscar suas inspirações e contexto na obra do escritor russo Evgeni Zamiatin, que ficou conhecido pelo icônico romance de mesmo nome do disco dos canadenses do Arcade. O livro de Zamiatin narra um futuro distópico, obra que influenciou os romances, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, obras que delinearam muito bem a vida e seus caminhos. Agora chegou a vez de ‘WE’ assumir esse legado.


O Arcade Fire volta após longos cinco anos (nem parece tanto tempo assim, desde o tão criticado ‘Everything Now’) contextualizando nossos medos, anseios, incertezas e a dura, e satisfatória aprendizagem de sermos pais em um mundo caótico, com nuances de positividade reunidas em dez canções que resgatam a essência da banda e a marca registrada que fizeram deles peças sublimes em nossas vidas (pelo menos na minha), depois de um longo período acertando as contas com sua identidade e caminho a seguir.


‘The Suburbs’ de 2010, pode muito bem ter sido o grande último disco da banda, isso sem se esquecer de ‘Reflektor’ de 2013. Essas características definem ‘WE’ um trabalho que recupera isso tudo de maneira magistral e é tudo aquilo que poderíamos esperar de Win Butler e sua turma, uma banda que tanto acendeu emoções em seu público, um bom exemplo disso, foi o inesquecível show no Lollapalloza Brasil em 2014, e nem precisamos ir tão longe assim, mais emocionante do que a apresentação do grupo no Coachella 2022 impossível! Durante a performance de “Unconditional I (Lookout Kid)” faixa do novo disco, Butler leva as mãos aos olhos e toda a banda para, para ele poder se recompor, momento mágico e bonito.


Uma banda que iniciou sua trajetória quando estavam ali na casa dos vinte e poucos anos, com o denso e nostálgico ‘Funeral’ de 2004, vem abordando todos os estágios da vida em seus discos. Esse que vos escreve estava em um cyber café ali no longínquo ano de 2007, época da rádio terra, achando aquilo tudo muito surreal e extasiado com “Wake Up”. Ouvir ‘WE’ é regressar nestas nostálgicas memórias e de como o tempo passou e o Arcade Fire sempre esteve presente como um porta-voz de situações alegres e tristes. Uma premonição da vida.

Mas, se engana quem pensa que ‘WE’ veio para apagar todo o mal-estar modal de um vício moderno, as canções são mais sobre combate-lo, sobre permanecer vivo e esperançoso no futuro, mesmo que isso ainda possa parecer distante, esse ano as coisas podem mudar.

São canções que se colocam a frente das inseguranças de um mundo virtual que cada vez mais ganha expressividade, isolamento, a guerra na Ucrânia. O produtor Nigel Godrich (Radiohead) transmite essa atmosfera densa e árida para ambientação do disco, porém, sem deixar de lado a magia natural do Arcade Fire, unindo o Rock Alternativo, o Power Pop e um álbum conceitual de ficção científica.


‘WE’ é bem mais do que um disco, é o Arcade Fire retornando para casa cheio de histórias para nos contar e acalentar durante a tempestade.


A faixa que abre o disco “Age Of Anxiety I” começa com lindos arranjos de pianos e estruturas sintéticas que dão todo glamour para balada atmosférica que deságua em um Power pop contagiante. Esse é o disco que tanto esperávamos do Arcade Fire? A resposta para essa pergunta vem mais adiante com “The Lightning I, II” os primeiros singles que anunciaram o novo trabalho, explodem em uma atmosfera de sintetizadores que lembram ‘Born To Run’ do Bruce Springstten, e forma uma sequência emocionante com “Unconditional I (Lookout Kid)” outra pérola desse disco. Uma canção totalmente emocional, aquela virada sensacional que se aproxima do hit “Wake Up”. Essa é aquela canção para todos os pais e mães, um incentivo para nossos filhos abraçarem os altos e baixos da vida: Uma vida inteira de joelhos esfolados e desgosto vem tão fácil / Mas uma vida sem dor seria chato”.


Em “Unconditional II (Race &Religion)” a voz de Régine Chassagne dança sobre sintetizadores ao estilo Fleetwood Mac, com rajadas climáticas ancoradas pelo estrondoso Peter Gabriel. “Eu serei sua raça e religião... corpo e alma unidos”, canta Régine.


De certa forma Win Butler e cia estão cantando sobre nós, com uma capacidade convidativa rodeada de inúmeras emoções, reações, transformações e união. Tudo que precisamos neste momento. Um desabafo sincero, um grito na escuridão... assim como diz a faixa-título "Quando tudo acabar, podemos fazer de novo?” Um épico desde ‘Neon Bible’ de 2007.

 

Arcade Fire

'WE'


Lançamento: 6 de maio de 2022

Gênero: Rock Alternativo, Indie Rock

Ouça: "The Lightning I, II", "Unconditional I (Lookout Kid) e "Age Of Anxiety I"


 

NOTA DO CRÍTICO: 8,0

 

Ouça no Spotify:
















 

Veja o clipe de "The Lightning I, II" abaixo:


 

























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