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"Torto arado": entre as mazelas sociais e as belezas da literatura

Atualizado: 3 de fev. de 2023

"Penso que esse é o tipo de livro que todas as pessoas brasileiras deveríamos nos habituar a ler"

Imagem Reprodução Internet.


Quando vivenciamos uma experiência artística o que nos sobra é a memória desta experiência. Ela é impalpável, mas memorável. Muda conceitos, amplia ideias, alarga conhecimentos... E isso perpassa pela nossa vivência, enquanto indivíduos. E aqui, neste espaço que me recebe hoje, quero compartilhar minhas experiências através de algumas leituras.


Começo escrevendo sobre o impacto que o livro "Torto Arado", do brasileiro Itamar Vieira Jr., teve sobre mim.


Quando começo um livro eu tento sempre ler de uma vez as trinta primeiras páginas para poder me contextualizar à fundo e querer voltar com curiosidade (e saudades) para a leitura, já íntima de nomes, lugares, personagens e mais próxima do fio da narrativa. Com o livro Torto Arado, não pude. Li as três primeiras páginas e foi tão forte que tive que parar. Precisava diferir as imagens que minha mente formou sobre os acontecimentos daquele primeiro capítulo. Forte, doído. Quando minha respiração normalizou voltei ao livro pensando "o que mais pode acontecer? Isso é tão impactante que parece um final!" Mas não foi à toa que o livro de um autor tão novo já é tão premiado no meio literário. E durante a leitura seguiu-se um turbilhão de pensamentos condensados por aquela sensação primeira.



Metáforas desenham a história das irmãs Bibiana e Belonísia desde o título do livro. Arado é um instrumento usado para lavrar o solo. Um símbolo do trabalho agrícola que no livro representa a opressão dos trabalhadores e trabalhadoras. É torto, é errado. E por isso, deve ser superado. Acredito que qualquer sinopse mais objetiva, poderia desfazer o encanto do realismo mágico que é característica marcante do livro.



Penso que esse é o tipo de livro que todas as pessoas brasileiras deveríamos nos habituar a ler. Porque é sobre nós, sobre nossa história e origem. Faz entender e repensar sobre a situação latifundiária no país de uma forma lúdica sem deixar de ser coerente com a nossa realidade.

Trata ainda, nas cenas corriqueiras, narrando o cotidiano das personagens e nas cenas ápices, sobre racismo, violência contra mulher e principalmente sobre desigualdade social. Fala sobre pobreza. Sobre plantar para comer, sobre não ter moradia, nem salário. E diz tudo isso, contando a história de duas irmãs. As narrativas se entrelaçam, as narradoras e os pontos de vista mudam. Conta sobre os encantados de uma forma que deveríamos estar acostumados a falar e a ouvir, da mesma forma que aprendemos a romantizar os contos de fada medievais.



Me fez sonhar com os orixás e suas histórias, com a revolução e as nossas histórias não escritas. O livro é lindo, instigante e reflexivo. A última frase, assim como o primeiro capítulo, ressoou por vários minutos na minha cabeça. Como se tivesse ecoando um mantra, uma oração ou um ponto. As palavras flutuaram pela minha mente. E farão morada em mim.

 

Torto Arado

Itamar Vieira Junior


Primeira publicação: 2019

Gênero: Ficção, Realismo mágico

Prêmios: Prêmio Jabuti de Romance Literário, Prêmio Jabuti de Livro Brasileiro Publicado no Exterior, Prêmio Oceanos

Idioma Original: Português

Editora: Todavia

Páginas: 264


 

NOTA DO CRÍTICO: 10

 










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