Syd Barrett, Roger Waters e o começo silencioso do fim do Pink Floyd
- Marcello Almeida

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Muito antes do colapso, uma frase escrita em tom de brincadeira já antecipava a tensão que dividiria a banda

Quando o Pink Floyd ainda era uma promessa psicodélica em formação, tudo parecia girar em torno de Syd Barrett. Carismático, inventivo e absolutamente imprevisível, ele era o centro criativo da banda. Mas, como tantas histórias do rock, o excesso começou a cobrar seu preço, e, no caso de Barrett, esse preço veio rápido demais.
Entre 67 e 68, seu comportamento mudou drasticamente. O uso constante de LSD, anfetaminas e outras substâncias começou a afetar sua presença em palco e sua capacidade de se comunicar. O produtor Joe Boyd chegou a descrever seu olhar como vazio, como se algo tivesse sido desligado por dentro. Era o tipo de transformação que não se explica de imediatoma, s que todos ao redor percebem.
Só que essa história não começa no colapso. Antes disso, havia convivência. E muita. Nos primeiros anos, a banda vivia uma espécie de rotina boêmia compartilhada entre Londres e Cambridge. Barrett e Roger Waters dividiam não apenas o projeto musical, mas também espaços, ideias e o dia a dia. Era uma proximidade criativa intensa, o tipo de relação que pode tanto fortalecer quanto desgastar.
E, em algum momento, começou a pesar. Em uma carta escrita em 1965 para sua namorada, Barrett deixou escapar algo que, na época, soava quase como piada: “Você pode ter Roger demais, mesmo ele sendo um bom amigo”. A frase, aparentemente leve, carrega hoje um peso diferente. Não como um desabafo dramático, mas como um sinal. Um desses pequenos indícios que só fazem sentido quando vistos depois.
Porque, com o tempo, aquela convivência se tornaria insustentável. À medida que a saúde mental de Barrett se deteriorava, Waters começou a assumir um papel mais controlador dentro da banda. O equilíbrio se rompeu. O que antes era parceria virou tensão. E o grupo, que dependia daquela conexão, passou a se fragmentar.
O momento mais brutal dessa ruptura veio de forma quase banal. Em relato posterior, David Gilmour lembrou do dia em que decidiram simplesmente não buscar Barrett para um show. Estavam no carro, alguém sugeriu passar para pegá-lo, e a resposta foi direta: melhor não. E seguiram viagem. Sem discussão. Sem despedida.
Foi assim que tudo acabou. Mas a história não termina ali. O curioso é que o sentimento descrito por Barrett anos antes, esse “excesso” de convivência com Waters, não desapareceu com sua saída. Ele apenas mudou de direção. Com o tempo, Waters assumiu controle criativo quase total do Pink Floyd, levando a banda a seus maiores sucessos, como The Dark Side of the Moon e The Wall. Mas esse mesmo controle também gerou novos atritos.
A tensão voltou. E, eventualmente, consumiu o resto do grupo. Em 85, o próprio Roger deixou a banda, repetindo, de outra forma, o ciclo que havia começado anos antes com Barrett. A dinâmica que um dia o incomodou acabou se tornando parte da sua própria trajetória dentro do Pink Floyd.
Anos depois, em “Poles Apart”, do álbum de 1994, Gilmour parece revisitar essas duas figuras centrais da história da banda, Barrett e Waters, como se ambos representassem extremos diferentes do mesmo passado.
No fim, o que resta é aquela frase simples, escrita em um momento qualquer, sem pretensão de se tornar símbolo. Mas que se tornou. Porque, às vezes, o início do fim não está em grandes eventos, está em pequenas percepções que ninguém leva a sério na hora.
Algumas rupturas começam muito antes de alguém perceber que já é tarde demais.










Comentários