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Steve Hackett - The Circus and the Nightwhale: um disco que se desenvolve muito bem dentro de um fluxo diversificado de melodias e temas

Atualizado: 7 de mar.

Envolvente e cativante, mostra o quão relevante, ainda hoje, Steve Hackett consegue ser. 

Steve Hackett
Imagem: Reprodução


Steve Hackett, o lendário guitarrista e eterno ex-Genesis, dono, porém, também de uma carreira solo brilhante e muito bem consolidada, está de volta pouco mais de dois anos depois desde seu último registro, Surrender of Silence, de 2021. The Circus and the Nightwhale é o 30° álbum do músico, um trabalho conceitual em que suas 13 faixas se encontram em volta de um jovem personagem chamado Travla, mas, segundo o próprio Hackett, o disco também traz um ângulo autobiográfico, externando, assim, muitas coisas que ele queria dizer há tempos, podendo ser visto também como uma jornada sobre a sua vida, seja ela de forma literal, seja metafórica. 

 

Apesar de ser um disco com 13 músicas, trata-se de um registro muito mais compacto que seus trabalhos anteriores, contendo apenas 44 minutos. Mas, diferentemente de seus predecessores, que apresentavam uma grande influência na world music, em The Circus and the Nightwhale, o guitarrista decidiu mergulhar em uma sonoridade progressiva mais clássica. Se você for aquele fã mais purista e que vinha perdendo o interesse nos discos de Steve Hackett, talvez este seja o momento para que você volte a se aventurar em sua música. 

 



Aos 74 anos de idade, Steve Hackett poderia há bastante tempo simplesmente desfrutar dos louros conquistados durante uma carreira musical brilhante, mas ele escolhe se manter prolífico, não apenas fazendo grandes shows por todo o mundo, mas criando discos com materiais inéditos, algo que, inclusive, faz em pequenos intervalos. Pra completar, The Circus and the Nightwhale é o seu melhor disco em anos. Como sempre, o músico tem uma companhia de peso, Roger King (teclados, programação e arranjos orquestrais), Amanda Lehmann (vocal nas faixas 1, 5, 7, 8 e 12), Nad Sylvan (vocal e guitarra na faixa 3),  Benedict Fenner (teclados nas faixas 7 e 8), Rob Townsend (saxofone e tin whistle nas faixas 3 e 8), John Hackett (flauta na faixa 5), Malik Mansurov (tar na faixa 8), Jonas Reingold (baixo nas faixas 1, 3, 6, 12), Craig Blundell (bateria nas faixas 3, 5, 7, 12), Hugo Degenhardt (bateria na faixa 9), Nick D'Virgilio (bateria na faixa 1), Daniel Rawsie (voz na faixa 8) e Jorge Araujo (voz na faixa 8). Durante o álbum, Hackett toca guitarra, violões de 6 e de 12 cordas, bandolim, gaita, percussão e baixo, além de cantar. 

 

People of the Smoke começa por meio de alguns efeitos sonoros e um pequeno trecho de Listen With Mother - um programa de rádio da BBC feito para crianças que foi exibido entre 1950 e 1982. Hackett entrega alguns vocais muito interessantes e equilibrados e linhas de guitarra prazerosas de ouvir, enquanto a bateria de Nick D'Virgilio é sempre executada com muita precisão e finesse. De caráter sinfônico, inicia o disco muito bem. Vale mencionar também, o vídeo oficial da música, usando as palavras do próprio Hackett. People of the Smoke tem um vídeo maravilhosamente evocativo que resume muito bem aquela época. É de Paul Gosling e captura a Londres em preto e branco, esfumaçada, nebulosa e turva daquela época, é um vídeo interessante.

 



These Passing Clouds é a primeira das 4 faixas que possuem menos de 2 minutos de duração. Uma peça instrumental - a primeira de cinco. É sinfônica e tem um dos solos de guitarra mais temerosos do álbum. Chega a ser lamentável não ser mais longa, mas, de qualquer forma, entrega uma espécie belíssima de vinheta. Taking You Down é uma música feita para um amigo da época de escola de Steve, um tipo de amigo que é difícil imaginar que o guitarrista tivesse, um garoto problema. Hackett até o acompanhava em algumas travessuras, mas por vezes esse amigo passava um pouco do ponto. Traz uma das guitarras mais ferozes do álbum e os vocais de Nad Sylvan sempre conseguem entregar aqueles acenos ao Genesis, enquanto os ataques de saxofone injetam na música linhas agressivas de jazz.

 

Found and Lost é a segunda das músicas com menos de 2 minutos, porém, possui tempo suficiente para trazer um tema muito intimista, o primeiro amor da vida de Hackett. Ele realmente gostava muito dela e ficou arrasado quando ela decidiu que ele não era o que ela queria e o largou, tendo demorado um tempo para superar tudo. No fim, os caminhos que os dois seguiram foram bem diferentes, enquanto o guitarrista foi fazer história na música, sua paixão da época entrou no mundo das drogas e acabou até sendo presa. Eles ainda mantiveram contato por um tempo, ela mandava da prisão cartas para ele. Tem uma cadência triste, em que, muito mais do que a sua instrumentação melancólica, a forma como Hackett canta em um tom extremamente pessoal é o seu maior destaque. 

 

Enter the Ring traz de volta as lembranças que o guitarrista tem em relação à fama que alcançou nos anos 70, enquanto esteve com o Genesis, aquela sensação de estar extremamente ocupado enquanto ele e seus amigos de banda se encontravam em vários lugares em pouco espaço de tempo. Segundo Hackett, foi durante essa fase da banda que ele teve as ideias que viriam a se transformar no seu disco de estreia, Voyage Of The Acolyte. Uma das minhas músicas preferidas do disco, ótimos solos de guitarra, flautas flutuantes, seção rítmica sólida, um final sinfônico e algumas atmosferas de influência circense, tudo é muito bem-feito. 

 



Sobre Get Me Out, se na faixa anterior, Hackett focou nos seus momentos de glória com sua antiga banda, aqui a ótica é voltada para suas frustrações da época. Após a saída de Peter Gabriel, o guitarrista sentiu que Phil Collins, Tony Banks e Mike Rutherford estavam unidos de tal forma, que ele se sentia deixado de lado, percebia que suas contribuições eram sempre rejeitadas - muitas dessas ideias ele usaria nos seus primeiros discos da carreira solo. É um dos momentos mais pesados do disco, as linhas de guitarra de Hackett estão intensas e violentas, a cozinha junto da orquestração ao fundo em ritmo de marcha - quase blues -, quando acionada, traz um clima visceral para a peça.

 

Ghost Moon and Living Love é sobre quando ele realmente estava determinado a deixar os seus dias de Genesis para passar a trilhar o seu próprio caminho. Com quase 7 minutos, é a maior peça do disco, uma linda balada. Seu começo por meio de um arranjo orquestral junto da voz prodigiosa de Amanda Lehman - ideia essa que, segundo Hackett, surgiu durante um sonho febril -, logo dá lugar a algumas batidas médias, seção rítmica compacta, vocais melodiosos - seja solo ou em coro -, alguns solos adoráveis de guitarra e um trabalho apropriado de teclado. 

 

Circo Inferno é mais uma música em que Hackett quer expressar o período mais louco da sua vida junto ao Genesis, uma espécie de circo maluco em que viveu. Assim como comentei que Get Me Out é uma das faixas mais pesadas do disco, aqui o guitarrista também soa bombástico e explora uma sonoridade quase de metal progressivo, porém, ao mesmo tempo em alguns pontos usa influência de músicas do oriente médio - o próprio uso de tar bem no início da peça já demonstra isso. O solo incendiário de saxofone no final é a cereja do bolo. 

 



Breakout é a terceira das faixas com menos de 2 minutos. Um rock instrumental ardente, de linhas fervorosas de guitarra, seção rítmica pulsante e teclados que se destacam principalmente quando emulam um coral. All at Sea é a última das peças mais curtas do álbum. A princípio começa com a mesma energia deixada pela faixa anterior, mas depois muda de direção, se transformando em uma música mais atmosférica e até um pouco sombria.

 

Into the Nightwhale, segundo Hackett, esta não é apenas sobre enfrentar os seus demônios, mas conseguir superá-los, sobre ser forte e estoico. É um dos momentos mais belos do disco, começando por meio de alguns teclados atmosféricos que antecedem uma batida média e criam um clima que lembrou um pouco o de Darkness do Peter Gabriel. Os vocais de Hackett entregam até mesmo um “q” de David Gilmour - quem me conhece sabe o quão grande é esse elogio -, enquanto a guitarra melódica parece imergir em um estado de lamentação. 



Wherever You Are, se em Found and Lost a ideia de Hackett era a de relembrar um amor do passado que de uma hora pra outra lhe descartou, aqui estamos diante de uma declaração de amor direcionada para sua atual esposa, Joanna Lehmann - irmã mais velha de Amanda Lehmann -, sendo uma verdadeira celebração do amor mútuo que existem na relação entre eles. É nítida a forma que Hackett canta e toca guitarra de maneira apaixonada sobre uma melodia bastante forte e edificante. White Dove é a faixa que encerra o disco, a sua 5ª peça instrumental. Melancólica, acústica, de influência clássica e que transparece um enorme romantismo, além de emoções profundas, soa como se agora Hackett quisesse apenas descansar após trazer à tona tantas lembranças de sua vida. 

 

Mesmo soando muito mais como um disco de rock progressivo clássico, The Circus and the Nightwhale consegue se desenvolver muito bem dentro de um fluxo diversificado de melodias e temas. Um disco envolvente e cativante que mostra o quão relevante, ainda hoje, Steve Hackett consegue ser. 

 

The Circus and the Nightwhale

Steve Hackett


Ano: 2024

Gênero: Rock Progressivo

Ouça: "People of the Smoke", "Taking You Down" , "Into the Nightwhale"

Humor: Nostálgico

Pra quem curte: Peter Gabriel, Adrian Belew, Genesis (era Peter Gabriel)

 

NOTA DO CRÍTICO: 8,5

 

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