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O dia em que um porco do Pink Floyd escapou pelo céu de Londres

Quando a arte perdeu o controle e virou lenda antes mesmo de virar capa

Capa do disco Animals, do Pink Floyd
Imagem: Divulgação

Poucas capas na história do rock são tão imediatamente reconhecíveis quanto a de Animals, do Pink Floyd. Um porco inflável suspenso no ar, pairando de forma ameaçadora sobre a Battersea Power Station, como se estivesse observando o mundo de cima, frio, irônico, indiferente. O que pouca gente imagina é que essa imagem, hoje cristalizada na memória coletiva, quase terminou em desastre real.



A sessão de fotos aconteceu em 1976, meses antes do lançamento do disco. A ideia partiu de Roger Waters em parceria com Aubrey Powell, do coletivo Hipgnosis, responsável por algumas das capas mais icônicas da música. O conceito parecia simples no papel: inflar um porco gigantesco, com cerca de 12 metros de comprimento, e fotografá-lo flutuando entre as chaminés da usina londrina. Simples apenas até o vento entrar em cena.


No primeiro dia, tudo parecia sob controle. O porco, batizado de Algie, foi preso por cabos enquanto a equipe ajustava ângulos e enquadramentos. No segundo dia, talvez por excesso de confiança ou economia mal calculada, alguém decidiu dispensar um dos cabos de segurança. Bastou uma rajada mais forte para transformar a sessão em um espetáculo surreal. O porco se soltou, subiu rapidamente e desapareceu no céu cinzento de Londres.



Em poucas horas, o que era um ensaio fotográfico virou um incidente aéreo. O espaço aéreo precisou ser monitorado, voos foram alertados e o aeroporto de Heathrow chegou a ser temporariamente afetado. Pilotos relataram a visão improvável de um porco gigantesco cruzando o horizonte. No fim do dia, Algie foi encontrado em um campo no interior de Kent, para o desespero de um fazendeiro que viu seu gado entrar em pânico diante daquela aparição absurda caída do céu.


A ironia é que o caos dialogava perfeitamente com o espírito do álbum. Animals é um disco atravessado por crítica social, cinismo e desencanto, inspirado livremente em A Revolução dos Bichos, de George Orwell. A fuga do porco, involuntária e descontrolada, parecia materializar o próprio discurso do disco: poder solto, símbolos fora de controle, estruturas que não se sustentam sozinhas.



A foto definitiva, curiosamente, não veio daquele dia. Uma nova tentativa foi feita, com mais cautela, mas a luz não colaborou. A solução foi técnica e silenciosa: Aubrey Powell combinou imagens feitas em dias diferentes, colando o porco fotografado em outra ocasião sobre a imagem da Battersea Power Station. O resultado foi tão natural que virou verdade absoluta. A capa que parecia um flagrante perfeito é, na prática, uma construção cuidadosa.


Quando Animals chegou às lojas, em 1977, o disco já carregava uma aura mítica. A imagem do porco não era só uma provocação visual, mas um resumo do que o Pink Floyd estava dizendo ali: sobre hierarquias, exploração, desumanização e controle. Com o tempo, a usina virou ponto de peregrinação para fãs, e Algie passou a reaparecer em shows, turnês e relançamentos, como um fantasma recorrente daquele momento.



Décadas depois, a história da capa segue sendo tão fascinante quanto o álbum. Porque, às vezes, a arte mais poderosa nasce exatamente quando algo sai do controle. E naquele dia, sobre Londres, um porco voou. E nunca mais pousou de verdade.



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