Room on Fire: quando o The Strokes provou que Is This It não tinha sido um acidente
- Marcello Almeida

- há 19 horas
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O problema de lançar um disco como Is This It é descobrir o que fazer depois dele

O problema de lançar um disco como Is This It é descobrir o que fazer depois dele. Em 2001, o The Strokes não havia simplesmente apresentado um grande álbum de estreia. Julian Casablancas, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti surgiram no momento exato em que o rock parecia procurar uma nova narrativa e, quase instantaneamente, foram transformados em resposta.
Is This It tinha guitarras secas, produção crua, melodias que pareciam ter sido encontradas em algum porão de Manhattan e uma displicência cuidadosamente construída. O passado estava por toda parte. Lou Reed, Velvet Underground, Television, garage rock, pós-punk. Mas nada parecia arqueologia. Parecia Nova York respirando novamente.
E foi aí que começou o problema. Quando chegou a hora de gravar o segundo álbum, o The Strokes já não era formado por cinco sujeitos tentando registrar a energia de uma cena. Era uma das bandas mais observadas do planeta. Qualquer mudança seria tratada como traição. Qualquer repetição seria vista como falta de ideias. Room on Fire, lançado em 2003, nasceu exatamente dentro dessa armadilha.
E saiu dela com onze músicas e pouco mais de meia hora de duração. Antes das gravações, o grupo tentou trabalhar com Nigel Godrich, produtor que havia ajudado o Radiohead a construir alguns dos discos mais importantes de sua geração. A parceria, porém, não avançou. O Strokes acabou retornando a Gordon Raphael, responsável pela produção de Is This It.
A escolha poderia sugerir uma tentativa de repetir a fórmula. Aconteceu algo mais interessante.
Raphael encontrou uma banda diferente daquela que havia entrado em seu estúdio poucos anos antes. Depois de quase dois anos de turnês e de uma ascensão brutal, aqueles cinco músicos carregavam algo que não existia durante a estreia: expectativa. O próprio produtor resumiria posteriormente aquela atmosfera ao dizer que eles tinham “o peso do mundo sobre os ombros”.
Dá para ouvir esse peso em Room on Fire. Só que ele não tornou o Strokes mais cauteloso. Tornou a banda mais precisa.
A produção continua enxuta. As guitarras permanecem comprimidas e cortantes. Casablancas ainda canta como alguém que passou a madrugada inteira acordado e decidiu gravar antes de dormir. Mas tudo está mais afiado. Se Is This It capturou a descoberta de uma identidade, Room on Fire mostrou o que acontecia quando o Strokes já sabia exatamente quem era.
Bastam os primeiros segundos de “What Ever Happened?” para perceber que a banda não pretendia pedir desculpas pelo próprio som. A faixa abre o disco praticamente confrontando tudo aquilo que havia acontecido desde 2001. O sucesso estava ali, a pressão também, mas nenhuma das duas coisas parecia capaz de domesticar o grupo.
E então chega “Reptilia”.
O riff avança como uma engrenagem descontrolada enquanto Fabrizio Moretti empurra a música para a frente e Casablancas entrega uma das performances vocais mais intensas de sua carreira. Não existe gordura. Nada sobra. Cada instrumento parece ocupar exatamente o espaço necessário para fazer a música avançar.
Essa economia percorre o álbum inteiro. “You Talk Way Too Much” transforma desgaste emocional em melodia. “Meet Me in the Bathroom” carrega no próprio título a madrugada nova-iorquina que cercava aquela geração. “The End Has No End” mostra quanto movimento o The Strokes conseguia produzir trabalhando com pouquíssimos elementos.
No meio de toda essa tensão aparece “Under Control”.
É quando Room on Fire baixa a guarda. A guitarra se torna delicada, Casablancas abandona parte da indiferença que ajudou a construir sua persona e surge uma vulnerabilidade que o primeiro disco apenas insinuava. Por alguns minutos, aquela banda que parecia tão confortável em soar indiferente deixa a melancolia ocupar o primeiro plano.
Está aí uma das diferenças fundamentais entre os dois trabalhos. Is This It tinha o fascínio da descoberta. Room on Fire tinha consciência. Comparar os dois álbuns virou praticamente uma tradição entre fãs da banda, e Is This It quase sempre começa a disputa com vantagem. Não necessariamente porque tenha músicas melhores, mas porque possui algo que nenhum segundo álbum poderia reproduzir: o impacto da chegada.
É impossível lançar um disco de estreia duas vezes. Room on Fire não apresentou o grupo ao mundo. Não poderia recriar a sensação de encontrar aquela banda pela primeira vez, nem reproduzir o momento cultural de Nova York no início dos anos 2000. Sua missão era mais ingrata: sobreviver às consequências de tudo aquilo.
E sobreviveu.
A grande força de Room on Fire está justamente em não destruir aquilo que havia funcionado apenas para demonstrar evolução. O The Strokes percebeu que avançar não significava obrigatoriamente abandonar sua linguagem. Também era possível aprofundá-la, retirar excessos e dominar cada detalhe dela.
Por isso, mais de duas décadas depois, Room on Fire merece ser observado para além da sombra gigantesca de Is This It. Não como uma continuação que tentou reproduzir o fenômeno anterior, mas como o momento em que cinco músicos, pressionados pela expectativa de uma geração inteira, decidiram confiar naquilo que sabiam fazer melhor.
Mais conciso. Mais tenso. Mais melancólico. Mais seguro.
Is This It capturou o instante em que o mundo descobriu o Strokes. Room on Fire capturou algo igualmente fascinante: o instante em que eles descobriu que conseguiria sobreviver ao próprio sucesso.
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