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Purple Rain, Stranger Things e o reencontro de Prince com uma nova geração

Para deixar os olhos marejados

Prince
Imagem: Reprodução

Falar de Purple Rain é falar de um ponto de virada definitivo da cultura pop. Um disco que une dor, desejo, espiritualidade, erotismo e redenção sem pedir licença. Prince nunca foi apenas um cantor ou compositor: era um criador total, um guitarrista de outro plano, capaz de transformar seis cordas em linguagem emocional.



Cada solo parecia uma confissão. Cada silêncio, uma provocação. Há ali a consciência de fim de ciclo, e, ao mesmo tempo, a fé de que algo pode nascer da travessia.


Essa dimensão se aprofunda quando lembramos que “Purple Rain” não surgiu como peça de cinema, mas como experiência ao vivo. Antes do filme, antes do mito, a canção foi apresentada no palco, guardada para o bis, testada no limite do tempo e da emoção. Um risco artístico deliberado.


Ao lado da The Revolution, com Wendy Melvoin estreando e compartilhando a vulnerabilidade do momento, Prince inaugurava um universo. A performance registrada naquela noite não apenas antecedeu a versão definitiva: fundou o espírito da obra, longa, intensa, confessional, humana.


Em Stranger Things, nada disso é usado de forma aleatória. O que a série faz não é fan service; é curadoria emocional. A canção surge em uma cena decisiva entre Mike e Eleven, como se a música ocupasse o espaço onde as palavras já não conseguem sustentar o que se sente. A chuva púrpura volta a cair como metáfora de transformação: o mundo ameaça ruir, mas ainda existe a tentativa de permanecer junto. É catarse, entrega, vulnerabilidade. É o amor tentando sobreviver ao caos.



Não por acaso, When Doves Cry também aparece no episódio final. Uma canção sobre conflito, incomunicabilidade e ruptura, sentimentos que atravessam toda a trajetória dos personagens. Prince sempre entendeu que a dor emocional não é linear; ela se manifesta em camadas, silêncios e desencontros. Essa faixa traduz o abismo interno sem atalhos, sem promessas fáceis.


E então, nos créditos finais, o golpe definitivo: Heroes, de David Bowie. Dois artistas fora do tempo. Dois gênios que partiram em 2016. Dois criadores que nunca se curvaram a tendências, gêneros ou expectativas. A escolha não poderia ser mais simbólica: Prince e Bowie encerrando juntos uma história sobre amizade, perda, coragem e resistência — como se a arte, mais uma vez, assumisse o papel de guia quando tudo parece ruir.



Stranger Things não apenas impulsiona streams ou reapresenta clássicos à Geração Z. Ela reafirma algo essencial: quando a arte é verdadeira, atravessa décadas, formatos e gerações sem perder força. Prince permanece vivo porque sua música fala de transformação, de atravessar a tempestade acreditando que, mesmo no fim, ainda pode haver sentido.


E quando “Purple Rain” toca, em qualquer lugar do mundo, o arrepio chega antes da explicação.



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