Por que ainda ouvimos “Some Might Say”, do Oasis
- Marcello Almeida
- há 15 horas
- 3 min de leitura
Porque, no fundo, todo mundo ainda está esperando o sol aparecer.

Eu já disse isso aqui algumas vezes e vou tornar a repetir. Nesse universo das canções, existem aquelas faixas que parecem não envelhecer, e essa é uma sensação boa, como se elas apenas mudassem de lugar dentro da gente.
Em 24 de abril de 95, o Oasis alcançava pela primeira vez o topo das paradas britânicas com “Some Might Say”. Era mais do que um número 1. Era um aviso. Algo estava mudando, e não era só na música. A canção viria a abrir caminho para (What's the Story) Morning Glory?, mas, antes disso, já carregava dentro de si tudo aquilo que a banda queria dizer ao mundo.
Só que o fato curioso é que “Some Might Say” nunca foi abertamente sobre sucesso. Nem sobre aquela juventude rebelde, muito menos sobre atitude britpop. Ela sempre soou como alguém tentando se convencer de que as coisas vão melhorar… mesmo sem ter muita certeza disso.
E talvez seja aí que a música ganha uma camada ainda mais interessante, pelo menos para mim. Porque Noel Gallagher escreve a partir do ordinário, do estranho que existe dentro do comum. A imagem da pia cheia de peixes, misturada com a banalidade da louça suja, não está ali por acaso. É quase um retrato do cotidiano quando ele perde o eixo, quando tudo parece meio fora do lugar, entende? E, mesmo assim, a vida segue. Meio bagunçada, meio absurda, mas ela sempre segue.
Tem também aquela sensação meio estranha e boa de estar parado, esperando alguma coisa que não chega com hora marcada. Nesse ponto, me vem a figura de alguém numa estação, debaixo da chuva, “precisando de aprendizado”, é simples, mas diz muito. E, se a gente parar para observar de fato, é sobre aqueles momentos em que a gente sabe que está em transição, mas não sabe exatamente para onde está indo. Não é confortável, mas é inevitável.
E, no meio disso tudo, aparece a frase que sustenta a música inteira: “some might say we will find a brighter day”. Para muitos pode soar como uma promessa, eu gosto de pensar nela como uma possibilidade. Quase como se fosse algo que a gente precisa repetir para continuar. Não diria que seja aquele espírito de fé cega. Isso aqui tem mais a ver com resistência silenciosa.
O mais bonito é que a música também não tenta resolver as contradições. Quando ela coloca lado a lado quem não acredita no paraíso e quem vive no inferno, ela não escolhe um lado. Ela só mostra que cada um enxerga o mundo a partir do que vive. E isso muda tudo. Porque tira a ideia de verdade absoluta e coloca a experiência no centro.
E aí entra o Liam Gallagher, com aquela forma única de cantar, que parece, ao mesmo tempo, desafiadora e vulnerável. Ele canta como quem encara. Como quem não tem certeza, mas também não recua. E isso é Oasis.
“Some Might Say” é sobre aqueles dias em que você acorda meio atravessado, com a sensação de que algo não encaixa. E, mesmo assim, você levanta, encara o mundo, responde mensagem, pega condução, finge que está tudo sob controle. Não porque está, mas porque precisa estar. E isso é a vida acontecendo.
Talvez por isso a música ainda fique. Porque ela não pertence a 1995. Ela pertence àquele momento silencioso em que você está olhando pela janela, perdido nos próprios pensamentos, tentando organizar o que nem sempre faz sentido. Ela não resolve. Não organiza o caos. Mas ela ensina a conviver com ele. E, às vezes, isso é tudo o que a gente precisa.
No fim das contas, “Some Might Say” não é sobre acreditar cegamente em dias melhores. É sobre aceitar que a vida pode ser estranha, confusa e até fora do lugar, e ainda assim seguir em frente. E talvez seja exatamente por isso que a gente ainda ouve.
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