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Patti Smith e o disco que se recusou a ser confortável

“Radio Ethiopia” não suaviza nada. E talvez seja exatamente por isso que importa

Patti Smith
Imagem: Reprodução

Quando Horses foi lançado em 1975, Patti Smith não apresentou apenas um disco de estreia. Ela reposicionou o rock como território literário, espiritual e cru ao mesmo tempo. Poesia beat, garage rock, tensão urbana e devoção misturados sem pedir licença. Ao lado de Lenny Kaye, Ivan Král, Richard Sohl e Jay Dee Daugherty, o Patti Smith Group parecia menos interessado em agradar e mais disposto a afirmar presença.



Talvez por isso o segundo passo tenha sido tão delicado. Depois de um trabalho que soava como manifesto, qualquer repetição pareceria cálculo. Em seu livro de memórias Bread of Angels, Patti revela que não planejava imediatamente um novo disco. As turnês tinham sido exaustivas e, enquanto a Arista aguardava o sucessor, algo mais profundo acontecia: as palavras começaram a falhar.


“Por um tempo, perdi o contato com a linguagem; minha Fender Duo-Sonic falava por mim”, escreveu. A frase é mais do que confissão. Patti sempre foi escritora antes de ser cantora. Quando a guitarra passa a ocupar o lugar do verbo, há uma mudança de eixo. A literatura cede espaço ao ruído. A composição deixa de buscar forma e passa a aceitar fricção.


É nesse estado que nasce Radio Ethiopia. Lançado em novembro de 1976, o disco não tenta prolongar a arquitetura de Horses. A faixa-título, com quase dez minutos, aposta em improvisação, repetição e distorção contínua. A própria Patti a descreveu como “balbucios intencionais”. Não se trata de descontrole, mas de uma decisão consciente de tensionar os limites da canção.


A gravação ocorreu na noite de 9 de agosto de 1976, quando o furacão Belle se aproximava de Nova York. O produtor Jack Douglas chegou a interromper a sessão, mas a banda insistiu em seguir para o Record Plant. Toalhas foram colocadas sob as portas da sala de controle para conter possíveis infiltrações, enquanto ventos fortes derrubavam árvores e postes do lado de fora. Patti escreveu que caminhava pelo estúdio como “um coiote encurralado”, tomada pela sensação de que aquela faixa precisava ser capturada naquela noite.



Nas notas do encarte, Patti incluiu uma frase que sintetiza sua postura: “A arte que emerge do escopo ilimitado do rock ‘n’ roll não precisa de outro patrono senão o povo.” É menos uma provocação e mais uma declaração de autonomia. Em vez de consolidar uma fórmula vitoriosa, ela preferiu arriscar a própria imagem.


Quase cinquenta anos depois, Radio Ethiopia continua dividindo opiniões. Não é um disco confortável nem perfeitamente lapidado. Mas talvez sua força esteja justamente aí: no gesto de não aceitar a repetição como destino. Depois de um clássico, Patti Smith escolheu o risco. E o risco, no rock, costuma ser o que permanece.








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