Oasis e a geração que cresceu cantando “Live Forever”
- Marcello Almeida

- 26 de fev.
- 3 min de leitura
Essa geração cresceu. Pagou boletos. Perdeu gente. Viu o mundo ficar mais complicado

Quando começou sua história sonora com o Oasis? Você se lembra como foi a primeira vez que colocou os ouvidos naquelas canções agridoces, de refrões feitos para grudar na gente? Digo isso porque existem bandas que a gente simplesmente ouve, gosta e tudo bem. Mas tem aquelas que habitam um lugar único, viram parte da nossa biografia sem pedir espaço nem licença.
Por que amamos o Oasis?
Os irmãos birrentos voltaram para uma turnê após longos 16 anos e causaram um furacão sonoro pelo mundo. Provocaram emoções, lembranças, nostalgia, proporcionaram um encontro de gerações e mostraram aos novos fãs um pouco daquela efervescência do britpop dos anos 90.
Então bora começar uma revolução em nossas camas e não olhar para trás com raiva. Porque a gente (eu) ama os Gallaghers não apenas por causa daqueles acordes e versos poéticos do Noel. Não é apenas por “Wonderwall”, que ressoa pelo mundo afora, que conquista violões desafinados em fim de festa. Essa paixão pelo Oasis é mais profunda, é mais íntima, é de cada um. Talvez seja pelo simples fato de que, em algum momento dos anos 90, eles fizeram parecer que acreditar em algo maior era possível, era um ato concreto.
A história do Oasis tem todo um contexto socioeconômico e político por trás: Manchester, aquele início de década. Fábricas e empregos sucateados, ressaca econômica, céu cinzento e, no meio disso tudo, dois irmãos da classe trabalhadora que cresceram ouvindo Beatles no talo, como quem estuda um mapa de fuga.
Noel Gallagher escrevia músicas como quem queria sair da cidade pela porta da frente. Liam Gallagher cantava como se estivesse desafiando o mundo a dizer que ele não podia.
E quando finalmente Definitely Maybe chegou em 94, não parecia aquele álbum planejado; parecia mais um grito de fuga urgente, com letras sobre sobrevivência, ambição e uma certa arrogância já pulsando em cada acorde. Eles ainda eram jovens, sem muito, mas com muita convicção. E convicção, quando você tem vinte e poucos anos, é tudo.
“Rock ’n’ Roll Star” já dizia mais do que qualquer berro pelas ruas cinzentas. Ah, “Supersonic” jorrando pelos alto-falantes, dizendo que você precisava ser você mesmo e se sentir supersônico. O amor pelos Beatles pulsa nessa canção. Dizer o que de “Slide Away”? Não vou dizer nada. Essa é daquelas que descartam textos e palavras sobre ela. Vai lá ouvir e depois volte aqui.
Logo depois, vem a catarse do britpop com (What’s the Story) Morning Glory?. Ali, a coisa toda começou a ficar gigante, maior até que a própria banda. “Don’t Look Back in Anger” virou isso que você vivenciou nos shows: uma comoção e gritos coletivos. “Champagne Supernova” parecia aquela música que durava o tempo exato de uma madrugada de insônia. E “Live Forever” virou uma espécie de oração laica.
Para ser sincero, essa canção pode ter sido uma das coisas mais existencialistas que o rock já produziu. Exagero, né? Que seja. Não é porque ela menciona filósofos; é o jeito de encarar o vazio e responder com aquela teimosia. A gente não vai viver para sempre mesmo, e talvez a vida seja pequena, desigual, injusta. Mas, por quatro minutos, alguém grita que vai viver para sempre e você acredita.
A gente ama o Oasis porque eles não eram cínicos, como muitos enchem a boca para dizer. Eles queriam ser a maior banda do mundo. Diziam isso em entrevistas. Brigavam por isso. Defendiam como se fosse uma questão de honra. Num mundo que já começava a rir de qualquer excesso, eles escolheram o exagero. Quer algo mais humano que isso?
Claro, havia ego, brigas públicas, rivalidade com o Blur, entrevistas absurdas. A implosão em 2009 não surpreendeu ninguém. Era quase coerente. Dois irmãos que cantaram sobre eternidade não conseguiram permanecer juntos. A promessa era grande demais para caber na realidade.
Mas talvez seja justamente aí que mora o amor.
O Oasis falava de sonhos impossíveis com a seriedade de quem acredita neles. E quando tudo desmoronou, as músicas continuaram de pé. Elas ainda estão ali. Intactas. Funcionais. Vivas. Eles estão.
Amamos o Oasis porque eles capturaram aquela fase da vida em que você olha para o horizonte e acha que ele está ao alcance da mão. E, mesmo depois que você aprende que não está, ainda precisa de alguém que te lembre daquela sensação. Entende?
Eles não são perfeitos. Nunca foram sofisticados no sentido intelectual. Não reinventaram a roda. Mas fizeram algo mais raro: transformaram ambição em hit coletivo. E talvez, no fim das contas, seja simples assim.
Enquanto alguém aumentar o volume de “Don’t Look Back in Anger” e cantar como se aquilo fosse sobre a própria história, o Oasis continua existindo. Não como nostalgia. Mas como insistência. Como aquela parte da gente que se recusa a aceitar que os sonhos têm prazo de validade.










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