O Sobrevivente abusa da linguagem dos videoclipes, da Ação e do cinismo para expor seu futuro distópico
- Eduardo Salvalaio
- há 17 horas
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Stephen King é exímio não apenas em sua arte de contar histórias de terror, mas também de criar obras que trazem todo um cenário distópico. Ainda usando o pseudônimo de Richard Bachman, o escritor em 1982 chegava com The Running Man, um livro que, mesmo após 44 anos, ainda perturba e continua contundente na atualidade.
No livro, temos um futuro distópico onde Ben Richards, um homem que precisa de dinheiro para salvar sua filha, se inscreve num programa de TV mortal intitulado The Running Man. Com câmeras por todos os lugares, ele será perseguido durante 30 dias por um grupo de caçadores e vira a atração do programa.
A obra de King ganhou as telas em 1987 com o diretor Paul Michael Glaser. O papel de Richards ficou com Arnold Schwarzenegger. O filme acabou ganhando repercussão mundial e continua sendo referência dentro do universo sci-fi distópico, apesar do próprio Arnold dizer depois que o filme não capturou tanto a crítica do livro de King.
Edgar Wright (Scott Pilgrim contra o Mundo, 2010) é o responsável pelo remake do filme, 38 anos depois. Glen Powell é quem agora interpreta o personagem Ben Richards. Novamente, estamos diante do sangrento show, entretanto aqui o roteiro ganha ainda mais detalhes futuristas como a caixa de correios cuja tampa vira um drone e é capaz de entregar a correspondência.
Mesmo com um andamento ágil, apelo mais visual e uma dinâmica típica dos filmes de ação nos últimos anos, a mensagem do filme pretende continuar intacta como estava nos 80's: a glamourização da TV, a manipulação da mídia e a barbárie servindo de espetáculo.
Wright teve a aprovação de Schwarzenegger nessa nova versão. Aqui, além da constante Ação e de inúmeras perseguições, também não ficaram faltando o humor e o cinismo. Exemplo é o próprio começo do filme onde Richards assiste a um programa de TV de perguntas e respostas em que o participante é uma pessoa obesa que precisa correr numa roda de exercício tal qual um hamster.
Josh Brolin faz o papel de Dan Killian, criador e produtor do programa. Um picareta que é capaz de manipular os vídeos e as imagens dos participantes em prol de mais audiência e de colocar o jogo a seu favor.

Michael Cera também está no elenco. Ele interpreta Elton Perrakis, um homem que entra no caminho de Richards. Um rebelde que também luta contra as forças opressoras e que é cheio de truques guardados em sua própria casa (o que acaba ocasionando uma das melhores passagens do filme).
Digamos que essa versão de O Sobrevivente ficou focada num participante que usa de disfarces e blefes para sobreviver, além de contar com pessoas em seu caminho capazes de lhe ajudar. Um homem que prefere se esconder e fugir a correr riscos. Que usa mais a cabeça e não o corpo. Diferente do personagem de 1987 que ficou bastante centrado em duelos corporais com rivais poderosos e truculentos como Dynamo, Subzero e Fireball.
O roteiro não perde tempo e cria também discursos panfletários já conhecidos do público, proferidos pelo próprio Richards: ‘a roupa que você está usando custa mais que o remédio da minha filha’ ou então, ‘parem de ver o programa e não sustentem mais essa rede que nos corrompe’.
O Sobrevivente se utiliza bastante da linguagem dos videoclipes, característica bem comum do diretor. Exageros visuais, cenas rápidas, constantes perseguições, correria. Um filme onde a ação ainda se sobressai mais do que a crítica e as mensagens que ele deseja passar.
Apesar de se entregar a obviedades, recorrer a velhos clichês do gênero e precisar de um final com melhor acabamento, é um entretenimento mediano que, mesmo de forma não tão certeira, continua valorizando a obra atemporal e necessária de King.












