Depois da guerra simbólica do Britpop em 1995, parecia que tudo já tinha sido dito. O Oasis estava no topo, dominando prêmios, multidões e manchetes. 1996 consolidou isso de forma quase incontestável, especialmente com os shows históricos em Knebworth, onde o tamanho da banda deixou de ser apenas sucesso e virou fenômeno. Mas, enquanto o rock britânico celebrava sua própria grandeza, algo diferente começava a pulsar ao redor. Não vinha das guitarras. Vinha das pistas. A cena clubber e a música eletrônica já não eram apenas nicho, estavam se tornando linguagem dominante de uma geração que queria mais do que cantar junto. Queria sentir no corpo, dissolver limites, perder o controle. E, no meio disso tudo, Noel Gallagher percebeu algo que muitos ainda não tinham entendido. Não era uma ameaça. Era uma expansão. Quando ele se junta ao The Chemical Brothers em “Setting Sun”, o que acontece ali não é só uma colaboração curiosa entre mundos diferentes. É uma colisão. E, ao mesmo tempo, uma síntese. Porque Noel não entra na música como convidado. Ele entra como ruído. Sua voz não busca perfeição, nem clareza. Ela vem suja, distorcida, quase engolida pela batida. E é exatamente isso que faz tudo funcionar. Não há tentativa de domesticar o eletrônico com rock, nem o contrário. Existe entrega. Existe excesso. E isso diz muito sobre aquele momento. Os anos 90 não eram só sobre estilos musicais. Eram sobre estado de espírito. Sobre uma geração inteira buscando alguma forma de escapar, das regras, das estruturas, do próprio peso da realidade. E, nesse sentido, tanto o Britpop quanto o breakbeat falavam a mesma língua, ainda que com sotaques diferentes. Um vinha da guitarra. O outro, da repetição hipnótica. Mas os dois queriam a mesma coisa: libertar. Talvez por isso “Setting Sun” soe tão natural hoje, mesmo sendo, na época, algo que poderia parecer improvável. Porque ela não força uma união. Ela revela algo que já estava ali, latente. A ideia de que essas cenas não competiam, elas se completavam. E Noel, de certa forma, entendeu isso antes de muitos. Enquanto o Liam Gallagher ainda olhava com desconfiança para esse universo, Noel já estava atravessando a ponte. Experimentando, absorvendo, expandindo seu próprio repertório criativo. Algo que, anos depois, faria ainda mais sentido na sua trajetória. Mas ali, naquele momento, não era sobre estratégia. Era sobre vibração. A faixa não tenta ser agradável. Não tenta ser universal. Ela é intensa, caótica, quase desconfortável em alguns momentos. E, justamente por isso, captura com precisão o espírito de uma época que não queria ser entendida, queria ser vivida. Trinta anos depois, o que fica não é só a música. É o gesto. A prova de que, quando a arte deixa de lado as fronteiras e segue o impulso, ela encontra lugares onde ninguém estava olhando, e cria algo que não existia antes Porque, às vezes, o futuro nasce exatamente no ponto onde tudo parecia incompatível.