No começo dos anos 2000, tudo parecia incerto, até o Strokes perguntar: Is This It?
- Marcello Almeida

- há 2 dias
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Quando tudo parecia perdido, cinco caras em Nova York fizeram o simples soar novo, e um deles é brasileiro

Em uma tarde remota do ano de 2001, me deparei com um clipe na MTV, e aquilo soava estranho no bom sentido. Eles eram diferentes, urgentes: aquelas guitarras, as jaquetas, o jeans desbotado e o velho conhecido All Star nos pés.
O clipe em si era de “Hard to Explain”, do Strokes. Findava ali o meu primeiro contato com a banda, e que demais foi tudo aquilo. Toda aquela efervescência… o rock estava vivo, ou melhor, ele nunca morreu de fato.
Já ia me esquecendo: ainda tinha aqueles cabelos desgrenhados. Aquilo era bem punk rock, com uma linguagem setentista, meio Stones. Naquele começo dos anos 2000, havia sempre alguma coisa estranha no ar. Não sei exatamente se aquilo era empolgação ou apenas um vazio inexplicável.
Mas era uma sensação de tremenda ressaca, como se a década anterior tivesse dito tudo o que podia e, de repente, ninguém soubesse muito bem o que fazer com todo aquele “silêncio” que ficou.
Mas é nesse espaço meio indefinido que o Strokes apareceu com um disco que dizia Is This It e parecia pequeno demais para o tamanho do impacto que causou. Isso me leva direto para a extinta loja de CDs na também extinta City Lar, uma loja de eletro da minha cidade. Lembro de ter encontrado Is This It socado lá no fundão dos CDs de pagode (risos). Que emoção poder colocar as mãos naquele disco.
E o mundo ainda não era tão digital e tecnológico, sem redes, sem streamings. Aquilo era diferente, tinha um sabor inexplicável. Ao contrário do que muitos disseram na época, o disco de estreia do Strokes não chegou tentando reinventar o rock. Ele fez algo bem mais difícil: tirou o peso das coisas.
Enquanto muita gente ainda tentava soar grandiosa, profunda, relevante, eles vieram com músicas que pareciam acontecer por acaso, como se sempre tivessem existido. Guitarras secas, repetição quase hipnótica, uma voz distante, meio desinteressada, como quem canta sem precisar convencer ninguém.
E isso, de algum jeito, foi revolucionário.

Na época, teve essa necessidade quase automática de comparação. Chamaram de “novo Nirvana”, falaram em renascimento do rock, em salvadores de uma cena que supostamente estava perdida. Mas olhando hoje, parece claro que o impacto do Strokes não veio de ruptura, e sim de reconhecimento. Era como olhar para eles e pensar: claro… era isso.
Porque, no fundo, Is This It não soa como uma resposta pronta para todas as afirmações e indagações da época. Ele soa mais como uma pergunta feita com tamanha naturalidade que era impossível ser ignorada.
O que sempre chama atenção é como tudo ali parece simples, mas, no fundo, não é. Existe uma precisão quase invisível no jeito que as guitarras se encaixam, no espaço que cada instrumento respeita, no ritmo que nunca acelera demais nem desacelera a ponto de perder o pulso. E, no centro disso tudo, Julian Casablancas canta como se estivesse dentro de outro cômodo, meio distante, meio entediado, mas estranhamente presente.
Não tem exagero, não tem explosão. Tem uma banda fazendo aquilo que gosta.
E talvez isso diga muito sobre aquele momento. O rock já tinha gritado tudo que precisava gritar nos anos anteriores. Ali, o gesto era outro. Era mais contido, mais frio, mas não menos intenso. Era uma energia que não se impunha, ela se infiltrava.
As referências estavam todas ali, mas nunca como cópia. Tinha Rolling Stones no balanço, The Velvet Underground na atitude, o punk nova-iorquino na sujeira elegante. Só que nada soava velho. Era como se eles tivessem reorganizado essas memórias em algo que finalmente fazia sentido para aquele tempo.
E tem também o contexto, que acaba atravessando o disco de um jeito inevitável. O 11 de setembro de 2001 muda tudo ao redor, e o álbum sente isso, na retirada de “New York City Cops” da versão americana, na atmosfera que ganha um peso que talvez não estivesse ali originalmente. De repente, aquele som que parecia despretensioso passa a carregar uma cidade inteira tentando se reconhecer de novo.
Mas o mais interessante é que Is This It nunca se torna um disco sobre isso. Ele não comenta, não reage diretamente. Ele continua sendo o que sempre foi: um retrato de gente jovem, perdida o suficiente para não ter respostas, mas lúcida o bastante para perceber que talvez nem precise delas.
Tem algo muito humano nesse disco. Não no sentido grandioso da palavra, mas no detalhe. Na imperfeição controlada. No jeito como músicas como “Someday” ou “Hard to Explain” parecem sempre à beira de escapar, como se qualquer mudança mínima pudesse desmontar tudo, mas nunca desmonta.
“Last Nite” foi um fenômeno visceral, aquele tipo de música que te fazia sair pulando pela casa, chacoalhando a cabeça, pura vibração. E talvez seja por isso que ele envelheceu bem. Todo mundo (ou quase todo mundo) tem uma recordação com esse disco.
Porque não é um álbum que tenta te convencer de alguma coisa. Ele não te empurra para um sentimento específico. Ele só fica ali, existindo, como um daqueles momentos da vida que você não entende completamente na hora, mas que depois percebe que mudou alguma coisa dentro de você.
No fim, o impacto de Is This It não está só no que ele fez com o rock. Está no jeito como ele capturou uma sensação difícil de nomear. Aquela impressão de que tudo estava começando de novo, mas sem a euforia de um começo. Só com a dúvida. E uma calma estranha de quem, pela primeira vez, aceita não saber.
É isso?











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