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Massive Attack e Tom Waits voltam com “Boots on the Ground”, e um recado direto ao presente

Quando o mundo endurece, alguns artistas respondem com som, e com posição

Foto: Warren Du Preez
Foto: Warren Du Preez

Após seis anos, o grupo britânico retorna com uma faixa densa, política e urgente, acompanhada de um filme que dialoga com o caos contemporâneo. Não foi anunciado, não foi antecipado, não veio com contagem regressiva. Simplesmente aconteceu.



O Massive Attack voltou.


Nesta quinta-feira (16), o coletivo lançou “Boots on the Ground”, uma faixa inédita que marca seu primeiro material novo em seis anos, e que já nasce carregada de tensão, densidade e um senso de urgência que não parece casual. Ao lado deles, está Tom Waits, uma presença que por si só já desloca qualquer projeto para um outro território. Mas não é só uma colaboração. É um posicionamento.


A faixa chega acompanhada de um filme criado pelo próprio Massive Attack em parceria com o artista visual thefinaleye, e funciona quase como uma extensão do som. As imagens — fragmentadas, intensas, inquietas — dialogam diretamente com o cenário político atual dos Estados Unidos, evocando protestos recentes, o endurecimento das políticas migratórias e a crescente militarização interna. Não há metáfora leve aqui. É confronto direto.


Em comunicado, o grupo foi claro sobre o momento em que a música surge:


“É uma honra de carreira colaborar com um artista da magnitude, originalidade e integridade de Tom, mas esta faixa chega em um momento de caos. Em todo o hemisfério ocidental, o autoritarismo estatal e a militarização das forças policiais estão novamente se fundindo com políticas neofascistas. Vista dentro do cenário de emergência americana, tanto interna quanto externamente, esta faixa carrega pulsos de impulso impiedoso e mente abandonada.”


A escolha das palavras não é aleatória. Assim como o som.


“Boots on the Ground” carrega aquela identidade já conhecida do Massive Attack, grave, opressiva, quase claustrofóbica, mas ganha outra camada com a presença de Tom Waits. Sua voz, marcada pelo tempo e pela experiência, não entra para suavizar nada. Pelo contrário. Ela pesa. Rasga. Parece narrar um mundo em colapso sem precisar elevar o tom.

E essa parceria não surgiu agora.


Waits revelou que a colaboração nasceu há anos, e que o tempo entre a criação e o lançamento nunca foi um problema. Talvez porque algumas músicas não pertencem ao momento em que são feitas, mas ao momento em que se tornam inevitáveis.



O lançamento ainda traz uma peça paralela. No lado B do vinil, “The Fly” aparece como um trabalho falado, descrito como irônico e sardônico, também assinado por Waits. Uma extensão conceitual que reforça o caráter mais amplo do projeto, não apenas musical, mas narrativo.


E até o formato físico carrega intenção. A edição em vinil será produzida com tecnologia “EcoSonic”, utilizando plástico PET reciclado no lugar do PVC tradicional, além de embalagens sustentáveis. Parte da receita será destinada a organizações como a American Civil Liberties Union e o US Immigrant Defense Project. Não é apenas discurso. Existe uma tentativa concreta de alinhar forma e conteúdo.


Outro detalhe não passa despercebido. “Boots on the Ground” marca o retorno de Tom Waits a gravações inéditas desde Bad As Me, lançado em 2011. Mais de uma década depois, sua voz reaparece em um contexto que parece dialogar diretamente com tudo o que ele sempre representou: inquietação, crítica, humanidade em estado bruto. A faixa ainda conta com vocais adicionais de seu filho, Casey Waits, ampliando essa camada pessoal dentro de um projeto essencialmente político.


E talvez seja isso que torna esse lançamento tão forte. Ele não tenta agradar. Não tenta suavizar o mundo. Ele observa, absorve e responde. Seis anos depois, o Massive Attack não voltou para ocupar espaço. Voltou para dizer alguma coisa.


Quando a realidade aperta, o silêncio deixa de ser opção.



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