Mark Lanegan, 'Sing Backwards and Weep: Memórias', um fantasma sortudo que não morre.

Atualizado: 24 de jan.




Quem é fã e acompanha Mark Lanegan desde aquela explosão inesperada de bandas que até então só habitavam os porões e as profundidades subterrâneas da cena musical no começo dos anos 90, terá, com a leitura dos relatos em seu livro de memórias, uma experiência similar à mesma de quando se dedica à audição de grandes álbuns– hoje consagrados como verdadeiros clássicos – como Sweet Oblivion e Whiskey For The Holy Ghost. Se esses discos convidam ao insistente repeat, as páginas vão segurar o leitor de tal maneira, que deixar o livro de lado por alguns instantes será algo característico daquelas missões mais árduas.


Lançada recentemente em caprichada edição nacional pela Editora Terreno Estranho, ‘Sing Backwards and Weep: Memórias’, uma das mais aclamadas e aguardadas publicações dos últimos tempos, é um registro sincero, poderoso e autêntico de um verdadeiro anti-herói que, por muitas e muitas vezes, foi ao inferno e voltou (nem sempre fortalecido), possuindo a benesse de continuar mantendo a maior de todas as dádivas, a vida.

Mark Lanegan pode ser considerado um sujeito de sorte. Ele mesmo se definiu, em certa passagem do livro, como ‘um fantasma que não morria’. Mais que um sobrevivente que se beneficiou dessa sorte para poder contar parte relevante da história de sua vida, ainda teve como importante aliada a grandeza de seu talento incontestável, o que imprime à obra um teor bastante especial e diferenciado.

Afinal, trata-se de uma das vozes mais belas e prestigiosas, que se tornou conhecida e respeitada ainda à frente de uma das melhores e mais interessantes bandas daquele período, o Screaming Trees, o que aconteceu graças ao crescente interesse de público que houve com relação a muitos nomes ligados ao meio alternativo, a partir da ascensão do underground de Seattle ao mainstream, propulsionada por Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden.


O texto de Lanegan é hábil, cru, ácido e mordaz. Essa sagacidade com as letras conduz o leitor a um percurso em que os relatos sombrios, pesados e tristes produzem aquele efeito de soco no estômago ou mesmo de um verdadeiro nocaute. Curiosamente, isso contribui ainda mais para aquela vontade toda de não interromper a leitura.


Mas, pode acreditar, há também certas passagens divertidas dentro do universo caótico proporcionado pela narrativa. Algumas situações descritas são repletas de humor negro e corrosivo, outras com bastante sarcasmo. Lanegan parece rir da sua própria desgraça, não apela para autocomiseração e narra acontecimentos que são verdadeiramente bizarros e até patéticos, dignos de uma espécie de ‘tragicomédia junkie’. Não fica difícil imaginá-lo como algum personagem de um romance do escritor escocês Irvine Welsh, o célebre autor de Trainspotting. Ele poderia muito bem se passar por um integrante das turmas de junkies desajustados e desvirtuados dos livros de Welsh. Aliás, a sua vivência, aliada à habilidade com as palavras, pode muito bem inspirar uma carreira interessante no terreno da ficção literária. Quem sabe?


As farpas não são poupadas a figuras como Bruce Pavitt (gravadora Sub Pop), Liam Gallagher (Oasis) e até ao ex-parceiro de Screaming Trees, Lee Conner. A tensão envolvendo o – então – encrenqueiro e fanfarrão vocalista da banda britpop de Manchester rende até algumas risadas (e dizem que a inimizade entre eles persiste até hoje). Outro momento engraçado vem do relato de um mal-entendido entre Mark e o Al Jourgensen do Ministry. Apesar da situação nervosa que é contada, fica difícil segurar o riso. Pegando mais leve, tem até uma revelação curiosa, e bastante hilária, referente a um encontro com Joey e Johnny dos Ramones durante uma turnê.


A odisseia tétrica de Lanegan apresentada nas páginas se constitui de constantes e desenfreadas buscas (algumas beirando o surreal) por heroína e crack, flertes com o alcoolismo, suas atuações degradantes e humilhantes como usuário e traficante, muitas brigas, agressões, um desespero avassalador por estar permanentemente em um fundo do poço sem alguma luz para enxergar e um traumático e conflituoso relacionamento familiar.


Apesar de todas as agruras, ele demonstra ser bastante emotivo e não esconde seu respeito, admiração e sensibilidade ao falar de amigos queridos e saudosos como Jeffrey Lee Pierce, Kurt Cobain e Layne Staley. Chega a ser comovente e a sinceridade nas palavras de Lanegan realmente emociona. A mesma consideração vale para outra grande amizade, com Josh Homme, um de seus estimados parceiros que, felizmente, continua aí. Pelo que descreve, Mark pode ser considerado um conquistador, pois contou também com certa sorte com as garotas, mesmo desprezando qualquer estereótipo ligado ao desgastado perfil de rock star/sex symbol. E ele teve uma grande e súbita paixão, que não foi adiante com a concretização do relacionamento devido a uma morte trágica, como foi o triste fim dos mencionados ícones do Nirvana e do Alice in Chains.


Bom, mas e a música? Sim, ele poderia ter se aprofundado mais nas informações sobre a criação musical e é uma pena que o recorte da abordagem não se estenda mais no tempo. O período da parceria com Isobel Campbell mesmo é uma ausência que deixa uma lacuna significativa no livro, afinal muitos, sem dúvida, têm a curiosidade em saber como foi todo aquele processo em estúdio, como se dava a relação de Lanegan com a integrante da maravilhosa banda indie escocesa Belle and Sebastian, considerando a beleza e a qualidade dos álbuns que fizeram juntos, afinal é bastante perceptível uma ‘química artística’ muito poderosa entre ambos.


Um ponto forte e muito interessante do livro são as menções que ele faz sobre suas diversas influências e inspirações, Desde Van Morrison ao The Gun Club, grupo do ídolo e amigo já citado, Jeffrey Lee Pierce. Um dos momentos marcantes, dos quais ele deve se lembrar com muito orgulho, foi um encontro com a lendária figura Johnny Cash, no qual o homem de preto lhe tece um elogio que muitos artistas teriam dado um braço para receber (logo de quem, diga-se!)

É preciso destacar a tradução do jornalista e escritor Carlos Messias, autor do elogiado romance “Consolação”. Messias é um admirador declarado da música de Mark Lanegan, o que pode ter contribuído bastante para conciliar prazer e responsabilidade nessa honrosa tarefa.

Sing Backwards and Weep: Memórias’ é Mark Lanegan corajosamente expondo feridas, cicatrizes, culpas, vergonhas, fraquezas, poucas habilidades sociais, traquejos deficitários para lidar com muitas questões práticas da vida, as aventuras e desventuras com os shows e as turnês, seus afetos e desafetos. Um homem de temperamento complexo, personalidade que une força e vulnerabilidade. E, como já foi descrito aqui, um cara de muita sorte. Até mesmo porque contou com apoios inestimáveis, sendo algumas ajudas, talvez, provenientes de quem menos esperaria. Ele se mudou para Irlanda recentemente, contraiu covid, perdeu a audição por uns tempos e quase morreu por causa do maldito vírus. Tudo isso está em seu novo livro ‘Devil in a Coma’. Tomara que seja lançado por aqui. E quem sabe Lanegan não arrisca uma continuidade na escrita quanto às suas memórias, que possa abranger o período dos anos 2000 em diante.

Até aqui, seu talento e sua sorte o ajudaram a sobreviver e a viver. Sorte a nossa também por isso.

 

Ficha Técnica:

Sing Backwards and Weep: Memórias

Autor: Mark Lanegan

Editora: Terreno Estranho

Tradução: Carlos Messias

Paginas: 432

Gênero: Memória, Autobiografia

Edição: 1ª edição

Ano da edição: 2021

Nota: 9.5



 

Sobre Marlons Silva

Sempre que pode ocupa seu tempo com o som de Jorge Ben Jor, Carole King e David Bowie, os livros do Irvine Welsh, os filmes do Ingmar Bergman e umas brincadeiras com a gatinha Lilly. Gosta muito também de pedalar. Acha que sem a música e a arte em geral, a vida seria um erro e também uma piada ruim muito sem graça. Enquanto aguarda ansiosamente uma temporada nova de Black Mirror, está sempre sendo apresentado a algo do universo dos animes pela filha Stella. marlonssilva1701@gmail.com

 




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