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Liam Gallagher, George Michael e a música que desmonta a ideia de “pop superficial”

Antes da nostalgia do Oasis, já existia respeito, e ele veio de onde menos se esperava

Liam Gallagher
Imagem: Divulgação

A turnê de reunião do Oasis em 2025 trouxe de volta tudo aquilo que parecia perdido: arrogância, barulho, identidade. Mas também revelou algo inesperado. Liam Gallagher, historicamente ácido, direto, quase sempre à beira do deboche, apareceu mais contido, menos disposto a atacar tudo ao redor.



Para quem cresceu com a imagem dos irmãos Gallagher como forças imprevisíveis do britpop, essa mudança soa quase como um deslocamento de eixo.


Mas talvez isso diga mais sobre a forma como a memória funciona do que sobre eles. Porque, mesmo no auge do caos, Liam nunca foi incapaz de reconhecer grandeza quando ela aparecia. E, curiosamente, uma dessas grandes referências não veio do rock barulhento, mas de um artista frequentemente subestimado por esse mesmo universo. George Michael.


Mais especificamente, a canção “Praying for Time”, lançada em 1990. Uma música que, à primeira vista, não tem nada a ver com o imaginário do Oasis. Sem guitarras estridentes, sem atitude de confronto explícito. Mas com algo que Liam sempre valorizou acima de tudo: intenção.


Em entrevistas, ele já deixou claro o impacto que a música teve sobre ele. Não pela melodia em si, mas pelo que estava sendo dito. Um verso em particular, “os ricos se declaram pobres”, chamou sua atenção. Para ele, havia ali provocação, crítica, uma forma de expor a hipocrisia social sem rodeios. E isso, no fim das contas, sempre foi mais importante do que o gênero.


Porque o que define o rock, para alguém como Liam, não é o som. É a postura. Essa linha de pensamento conecta diretamente nomes que, à primeira vista, não dividiriam o mesmo espaço. John Lennon, por exemplo, já fazia isso décadas antes, usando a música como ferramenta de confronto, expondo contradições sociais com uma naturalidade desconfortável. E é justamente essa herança que Liam identifica em George Michael. Não por acaso.


George Michael
Imagem: Reprodução

O próprio Michael já admitiu que “Praying for Time” nasceu, em parte, dessa influência. Era uma tentativa de se afastar da imagem de estrela pop impecável e construir algo mais denso, mais crítico. Uma música que não apenas funcionasse nas rádios, mas que carregasse um posicionamento claro. E conseguiu.


A faixa acabou se tornando um dos momentos mais respeitados de sua carreira, justamente por romper com a expectativa. Por mostrar que, por trás da superfície polida, havia alguém disposto a dizer algo relevante. Algo incômodo. E isso não passou despercebido.


Quando alguém como Liam, conhecido por filtrar tudo com desdém, reconhece esse tipo de valor, o gesto ganha outro peso. Não é elogio protocolar. É identificação. É reconhecer no outro aquilo que ele mesmo sempre tentou fazer: usar a música como forma de dizer o que precisa ser dito, sem se preocupar muito com como isso será recebido. No fim, talvez seja essa a grande ironia.



Enquanto muitos ainda tentam separar “rock de verdade” e “pop superficial”, artistas como Liam já entenderam que essa divisão nunca foi tão simples. Porque, quando a intenção é real, pouco importa o rótulo. A música atravessa.


Não é o gênero que define uma música, é o que ela tem coragem de dizer.




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