Leandro Borges faz do tempo matéria para a canção brasileira em novo EP
- Marcello Almeida

- há 11 horas
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Em Convenções do Tempo, o artista carioca transforma memória, delicadeza e inquietação em quatro canções que também ganharam o palco em diálogo com grandes nomes da MPB

O tempo nunca passa da mesma maneira para todos. Há dias que desaparecem antes que possamos percebê-los e outros que parecem permanecer conosco durante anos, guardados em uma melodia, uma palavra ou alguma lembrança que insiste em voltar. Em Convenções do Tempo, Leandro Borges parece compreender justamente essa natureza imprecisa das horas. Seu novo EP não tenta vencê-las. Prefere observá-las.
Com quatro faixas, o trabalho marca o retorno de Leandro ao cenário da música carioca e carrega uma sensação curiosa de continuidade. Como se alguma conversa iniciada anteriormente pelo compositor tivesse permanecido suspensa à espera dessas músicas. A faixa que batiza o EP coloca o próprio tempo no centro dessa narrativa e ajuda a estabelecer o clima de um disco interessado menos na pressa de chegar a algum lugar do que naquilo que acontece durante o percurso.
É uma escolha que ganha ainda mais significado diante da maneira como ouvimos música hoje. Canções atravessadas em segundos, discos fragmentados por algoritmos e uma quantidade quase infinita de lançamentos disputando atenção fazem da escuta cuidadosa um hábito cada vez mais raro. Leandro Borges segue pela direção contrária. Convenções do Tempo pede permanência.
Há cuidado na maneira como palavra, melodia e instrumentação ocupam seus espaços. A voz de Leandro não procura disputar terreno com os arranjos, assim como os instrumentos não aparecem apenas para preencher silêncios. Tudo trabalha em favor das canções. Essa economia é importante porque permite que as letras respirem e que determinados detalhes surjam somente depois de algumas audições.
E vai ver esteja aí uma das qualidades mais interessantes do EP: ele não parece interessado em revelar tudo imediatamente. Há trabalhos que impressionam pelo impacto inicial. Outros crescem pela intimidade. Convenções do Tempo pertence ao segundo grupo. A cada retorno, uma passagem instrumental, uma frase ou determinada inflexão vocal pode adquirir outro peso.
Essa relação com a palavra também aproxima naturalmente Leandro Borges de uma tradição muito particular da música brasileira, aquela em que composição e interpretação não precisam levantar a voz para alcançar profundidade. Sua música conhece o passado, mas não parece interessada em reproduzi-lo como peça de museu. A referência funciona melhor quando vira linguagem.
Foi justamente essa conversa entre presente e memória que ganhou outra dimensão quando Convenções do Tempo chegou ao palco.
No dia 8 de agosto, Leandro apresentou o espetáculo no Teatro Brigitte Blair, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Em vez de simplesmente transportar as quatro faixas do EP para uma apresentação ao vivo, o cantor construiu o repertório colocando suas próprias composições ao lado de músicas de Chico Buarque, Cartola, Noel Rosa, João Bosco, Caetano Veloso e outros autores fundamentais da canção brasileira.
A escolha diz bastante sobre de onde vem sua música. Quando um compositor coloca o próprio repertório ao lado de nomes dessa dimensão, o gesto mais interessante não está na comparação, mas na possibilidade de revelar suas referências. Chico, Cartola, Noel, João Bosco e Caetano pertencem a épocas, estéticas e maneiras distintas de compreender a canção. O ponto de encontro está na importância concedida à palavra, à melodia e à capacidade de transformar experiências íntimas em algo coletivo.
É nesse território que o espetáculo encontra sua identidade. A formação enxuta ajuda. Marcelo Formiga assume o violão, Jones Martins fica responsável pelo teclado e Gabriel Buzunga pela percussão e backing vocal. Ao redor da voz de Leandro, os três constroem uma arquitetura que preserva a proximidade necessária às músicas. Violão, teclas e percussão permitem mudanças de textura sem retirar das composições aquilo que elas têm de mais humano.
No palco, o conceito de Convenções do Tempo acaba se expandindo. Se o EP observa a passagem das horas a partir das canções de Leandro, o espetáculo olha também para aquilo que o tempo deixa dentro de um músico. As obras que fizeram parte de sua formação reaparecem ao lado das que ele escreve agora. Passado e presente deixam de ocupar lugares separados.
É bonito pensar na canção brasileira dessa maneira: não como uma linha histórica rígida, mas como uma conversa que nunca termina. Noel Rosa pode encontrar Chico Buarque; Cartola pode atravessar João Bosco; Caetano pode surgir entre composições escritas muitas décadas depois. Uma geração escuta a anterior, absorve alguma coisa, abandona outra e acrescenta sua própria experiência.
Leandro Borges entra nessa conversa sem necessidade de anunciar sua presença aos gritos.
Convenções do Tempo prefere a delicadeza. Em quatro músicas e em sua passagem pelo palco carioca, o compositor propõe algo aparentemente simples, mas cada vez mais difícil: escutar sem correr. Permitir que uma letra termine. Perceber o intervalo entre duas notas. Voltar a uma música porque alguma coisa nela ficou para trás.
Talvez o tempo continue sendo impossível de deter. A canção, porém, descobriu há muito uma pequena maneira de contrariá-lo: transformar alguns minutos em memória.
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