George Michael sabia que estava vencendo. E fez questão de que todos soubessem disso
- Marcello Almeida
- há 11 horas
- 3 min de leitura
Enquanto muitos artistas buscavam aprovação, George Michael parecia interessado em algo muito mais difÃcil: provar que talento também podia soar como confiança

Os anos 80 costumam ser lembrados pela explosão do pop, pelos sintetizadores e por uma geração de artistas que parecia disputar quem produziria o próximo grande sucesso. Mas, por trás das músicas que dominaram as rádios, havia uma corrida silenciosa por relevância. E poucos entenderam essa disputa tão bem quanto George Michael.
Há uma diferença entre parecer confiante e realmente acreditar que se está um passo à frente de todos. Michael nunca fez muito esforço para esconder em qual dos dois grupos se encaixava.
Na época em que o Wham! dividia espaço com nomes como Duran Duran e Culture Club, o sucesso da dupla ainda era visto por muita gente como um fenômeno passageiro. O primeiro álbum, Fantastic, chegou ao topo das paradas britânicas, mas existia a sensação de que aquilo talvez fosse apenas o resultado de uma sequência improvável de acertos.
George Michael nunca comprou essa narrativa. Em vez de tratar o segundo disco como uma tentativa de confirmar o sucesso, ele o encarou como uma demonstração de força. Make It Big não apenas consolidou o Wham! como um dos maiores nomes do pop mundial, como também mudou a percepção de quem via a dupla com desconfiança.
Anos depois, o cantor lembraria daquele momento sem qualquer modéstia.
"O Duran Duran e o Culture Club estavam tão desdenhosos, e ficaram chocados quando passamos por eles."
A frase pode soar arrogante. Talvez fosse mesmo. Mas ela também revela um traço raro em artistas que alcançam esse nÃvel de sucesso: George Michael parecia completamente convencido de que havia chegado ali porque era melhor.
Ele próprio enxergava essa evolução com clareza.
"Não consigo pensar em outra banda que tenha melhorado tanto entre o primeiro e o segundo álbum. Em Fantastic, dá para perceber que eu não me considero um cantor, mas alguns vocais em Make It Big são os melhores que já fiz. Mesmo que fôssemos uns idiotas, você ainda tinha que ouvir."
É uma declaração que dificilmente passaria pelo filtro das redes sociais de hoje. Mas talvez seja justamente por isso que ela continue tão interessante.
Existe uma tendência de romantizar a humildade como virtude obrigatória de todo grande artista. George Michael parecia discordar dessa ideia. Para ele, reconhecer o próprio talento não era um defeito. Era quase uma responsabilidade.
Talvez fosse essa convicção que separasse o Wham! de tantos contemporâneos. A dupla nunca se comportou como quem estava feliz apenas por participar da festa. Queria ser a principal atração dela.
O mais curioso é que, enquanto o mundo via o auge do Wham!, George Michael já observava a linha de chegada.
Ele sabia que a banda havia alcançado exatamente o que pretendia alcançar. Continuar apenas para prolongar o sucesso nunca fez parte do plano. Ao lado de Andrew Ridgeley, decidiu encerrar a trajetória do grupo no momento em que ele ainda parecia invencÃvel, mantendo a decisão em segredo por cerca de um ano e meio, até o fim do ciclo de Make It Big.
Foi uma escolha incomum. A maioria das bandas espera o desgaste aparecer para admitir que chegou ao fim. George preferiu sair quando ainda não havia dúvidas sobre quem ocupava o topo.
E talvez essa tenha sido sua maior demonstração de confiança. Ele nunca pareceu interessado em convencer os crÃticos de que merecia respeito. Também não perdeu tempo tentando responder aos detratores. Os discos faziam esse trabalho por ele.
No fim das contas, George Michael não queria apenas provar que o Wham! era maior do que seus rivais. Queria mostrar que algumas carreiras são construÃdas por quem espera reconhecimento. Outras, por quem entra na sala já convencido de que será impossÃvel ignorá-lo. E, olhando para a história da música pop, fica difÃcil dizer que ele estava errado.
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