Foreign Tongues mostra que os Rolling Stones continuam interessados no amanhã, não na própria lenda
- Marcello Almeida
- há 3 horas
- 3 min de leitura
Aos oitenta anos, Mick Jagger e companhia entregam um disco que olha para frente sem esquecer tudo o que os trouxe até aqui

Poucas coisas são tão difíceis para um artista quanto resistir à tentação de viver da própria história. Depois de décadas de carreira, o caminho mais confortável costuma ser olhar para trás. Os Rolling Stones continuam escolhendo justamente o contrário.
Essa talvez seja a primeira sensação ao ouvir Foreign Tongues. Em vez de tentar recriar a juventude ou disputar espaço com artistas décadas mais novos, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood fazem algo muito mais difícil: continuam curiosos. Continuam escrevendo como quem acredita que ainda existe alguma coisa a dizer.
Esse talvez seja o maior mérito do álbum.
Depois de Hackney Diamonds, que marcou uma nova fase para a banda após a morte de Charlie Watts, Foreign Tongues soa ainda mais seguro. Andrew Watt já entende perfeitamente o equilíbrio entre preservar a identidade dos Stones e dar às músicas uma produção moderna sem retirar delas a sujeira, o blues e a espontaneidade que sempre definiram o grupo. Steve Jordan, por sua vez, deixa definitivamente de parecer um substituto para assumir seu próprio espaço na engrenagem da banda.
Logo na abertura, "Rough And Twisted Road" deixa claro que os Stones continuam confortáveis dentro do blues que ajudaram a reinventar. Mas o disco nunca permanece tempo demais no mesmo lugar. Soul, gospel, rock clássico e pequenas nuances contemporâneas aparecem naturalmente, sem a impressão de que a banda esteja tentando acompanhar tendências.
O curioso é que Foreign Tongues fala sobre o tempo o tempo inteiro. As letras carregam uma consciência quase inevitável da idade, mas nunca soam derrotadas. Quando Mick Jagger canta sobre viver intensamente enquanto ainda há tempo ou Keith Richards admite, em um momento de rara vulnerabilidade, que "alguns de nós estão de joelhos", o álbum não transmite medo da velhice. Transmite lucidez. É como se os Rolling Stones finalmente aceitassem que o tempo venceu a batalha física, mas ainda estivesse longe de vencer a artística.
Essa maturidade aparece também nas críticas sociais espalhadas pelo disco. Elas não ocupam o centro da narrativa, mas funcionam como lembretes de que a banda continua observando o mundo ao redor, e não apenas revisitando a própria mitologia.
Essa disposição para seguir em movimento também aparece nas parcerias. Paul McCartney surge em "Covered In You" sem que o encontro soe como um evento criado apenas para reunir duas lendas britânicas. Robert Smith, por sua vez, deixa sua marca em "Never Wanna Lose You" de forma sutil, acrescentando uma atmosfera melancólica que conversa naturalmente com o restante do álbum.
São participações que não roubam a cena. Pelo contrário, reforçam a sensação de que Foreign Tongues está mais interessado em construir boas canções do que em colecionar nomes famosos no encarte.
Essa abertura para diferentes encontros também aparece na releitura de "You Know I'm No Good", de Amy Winehouse. Em vez de soar como um exercício de nostalgia ou uma homenagem protocolar, a escolha reforça a disposição da banda em dialogar com repertórios que atravessam gerações. É um detalhe que combina com a personalidade deles: um álbum que respeita o próprio passado, mas que não se limita a ele.
Pode até ser que o álbum não entregue uma canção destinada a dividir espaço com monumentos como "Gimme Shelter", "Jumpin' Jack Flash" ou "Paint It, Black". Esse é um peso inevitável para qualquer novo álbum dos Stones. Ainda assim, o disco quase nunca perde força. Mesmo quando algumas participações especiais parecem menos inspiradas do que poderiam, o conjunto permanece sólido e surpreendentemente vivo.
É bonito perceber que uma banda com mais de seis décadas de carreira ainda consegue soar inquieta.
Os Stones não tentam convencer ninguém de que continuam jovens. Eles simplesmente mostram que criatividade não tem idade. E talvez seja justamente isso que faça Foreign Tongues funcionar tão bem. Em vez de celebrar um legado, ele lembra que o legado continua sendo escrito.
O tempo levou muita coisa dos Rolling Stones. Levou rostos, fases, excessos e até companheiros de estrada. Mas não conseguiu levar aquilo que realmente importa: a inquietação. Enquanto ela continuar existindo, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood seguirão fazendo o que sempre fizeram de melhor. Não sobreviver ao rock, mas continuar escrevendo a história dele.

.png)