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Entre o refúgio e o luto, o Foo Fighters segue vivo com 'But Here We Are'

Um disco de letras honestas, focado na conexão humana.

Foo Fighters. Fotografia: Danny Clinch


A trajetória do Foo Fighters desde o lançamento do seu álbum homônimo em 1995, (disco que na época não foi muito bem recebido pela crítica), mudou da água para o vinho. Dave Grohl passou de baterista do Nirvana para o maior astro do rock n roll, tendo sua imagem ancorada pela frase: "o cara mais legal do rock". Entretanto, a morte tem sido presente na vida de Dave desde então: o suicídio de Kurt Cobain em 1994, o amigo e baterista dos Foos, Taylor Hawkins, como se já não fosse pesado demais, Grohl perdeu sua mãe recentemente também.


O fato da morte está presente na trajetória do Foo Fighters destaca como a banda tem enfrentando as adversidades da vida de uma forma poderosa. Se analisarmos a ótima "Everlong" de 1997, a letra fala sobre momentos de profunda dificuldade, a canção surgiu em um período onde Dave estava lindando com diversos desafios tanto na vida profissional quanto pessoal. Encontramos essa atmosfera em outras duas canções que possuem um peso enorme na discografia dos Foos, "These Days" de 2011 e "Time Like These" de 2002, onde a banda encara a morte de frente e reconhece o peso da existência humana.



Mesmo em seus álbuns mais recentes, com uma inclinação pop e produzidos por Greg Kurstin, há uma aura inquietante de desespero. "Waiting On A War", presente no disco anterior "Medicine At Midnight" (2020), retrata uma vida inteira esperando pela única certeza que temos nessa vida, a morte. No décimo primeiro álbum da banda intitulado 'But Here We Are', o primeiro sem Taylor Hawkins, cada faixa parece buscar um refúgio para lidar com o luto e os recentes acontecimentos que colocaram a banda por um fio, são músicas que emergem do luto, da dor e da tentativa de colar seus vários pedaços pelo chão. O disco é dedicado a essas duas pessoas fundamentais, pilares que serviram de base para que eles pudessem chegar onde estão hoje. Hawkins morreu repentinamente em março do ano passado durante uma turnê da banda; a mãe de Grohl, Virginia, morreu em agosto.


Algo curioso na produção do disco foi o fato das letras terem surgido primeiro no processo de composição do grupo e o total sigilo até o lançamento do primeiro single "Rescued". Grohl toca a bateria em todas as faixas do álbum e a única participação especial é de Violet, filha de 17 anos de Dave, na linda balada "Show Me How". Algo que torna o álbum um projeto pessoal e familiar. A sensação que discorre durante a audição do novo trabalho é de que o vocalista dos Foos está cantando direcionado para todos aqueles que ele perdeu durante sua vida, ao mesmo tempo que canta para uma multidão em estádios lotados (algo tradicional na jornada do Foo). "Under You" é uma prova dessa sonoridade perfeita para explodir a galera em arenas lotadas. O som não tem nada de revolucionário, seria até uma covardia cobrar algo deles nessa temporada da vida, 'But Here We Are' é o Foo Fighters sendo eles mesmos, fazendo o rock que eles sabem fazer e tá tudo certo, goste você ou não.


A faixa-título ("But Here We Are"), emula agridocemente a sonoridade de discos como 'One By One' de 2002. Mas como era de se esperar de um novo trabalho marcado por perdas e lutos, a muita melancolia e tristeza cravada no disco. "The Glass" com sua melodia agridoce e levada por uma camada acústica, deixa esse sentimento claramente no ar. “Eu tinha uma pessoa que amo /E assim, fui deixado para viver sem ele”. Uma faixa direcionada a Taylor. "Hearing Voices", ganha uma atmosfera meio gótica, algo emanado de um Synth-Pop que emula certas vibrações que acabam lembrando "Everlong", com Grohl cantando versos como: "Tarde da noite, digo a mim mesmo que nada tão bom pode durar para sempre".



Se boa parte das letras focam na dor, saudade, perdas e em colocar os sentimentos para fora, a música dos Foos não segue esses parâmetros. "Rest" pode ser uma exceção, uma faixa levada por uma melancolia que mais parece uma canção de ninar, porém, na maior parte 'But Here We Are' é voltado para o rock de guitarra presente em todos os discos do Foo Fighters até agora.


Mas a banda também se permite visitar novas ambientações e se aventurar por caminhos desconhecidos com "Nothing At All" e na doce e nostálgica "Beyond Me", que lembra o brit-pop satisfatório do Oasis. Ou na ousada e longa "The Teacher", a qual o título homenageia a profissão da saudosa mãe de Grohl. Uma faixa climática e densa que possui um início marcado por uma camada etérea que abre as portas para os vocais de Dave proferir versos como: “Eu posso sentir o que os outros fazem / Não posso parar com isso se eu quiser", e logo depois embarca em um rock "bombástico" para terminar em um clima a estilo The Cure.


Um disco que celebra a força da família, que busca um refúgio na música para suportar a dor das perdas, às vezes introspectivo, barulhento, repetitivo e confuso. Mas que prova do saboroso poder de cura e resiliência da música. E vale por ver uma banda veterana juntando seus pedaços e explorando seus limites. Como se a vontade de dizer algo para Taylor Hawkins impulsionasse a banda para um novo proposito, de continuar fazendo aquilo que eles gostam de fazer, agora na cia de Josh Freese na bateria.

 

But Here We Are

Foo Fighters


Lançamento: 02 de junho de 2023

Gênero: Rock, Rock Alternativo, Indie

Ouça: "Under You", "The Glass, "The Teacher"

Humor: Volátil, Agridoce, Reflexivo


 

NOTA DO CRÍTICO: 7,5

 

Ouça "Under You":




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