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Em “Tarde”, Gabriel Ventura explora a música em diversas e complexas estruturas sonoras.


Foto: Mariana Kreischer

Gabriel Ventura é um cantor, compositor e guitarrista carioca. Ao lado da baterista Larissa Conforto e do baixista Hugo Noguchi, fez parte do grupo Ventre. O trio acabou, mas as ideias e a vontade de fazer música de Ventura não. Três anos após o término do Ventre, lança seu primeiro álbum solo, intitulado “Tarde”.


O disco saiu pela Balaclava Records e conta com a produção de Patrick Laplan que já trabalhou com vários músicos, entre eles Los Hermanos e Duda Beat. O próprio produtor contribuiu no álbum assumindo bateria e programação eletrônica. Com a experiência adquirida nos tempos do Ventre e por meio da parceria com Laplan, Gabriel teve bons requisitos para esse seu primeiro trabalho solo.


A música inexata, em constante mudança, se confrontando entre momentos de calmaria e de tempestade, que une a intensidade e a suavidade, o ritmo que se junta através de remendos e de uma estrutura sonora estilhaçada. As letras fazem uma reflexão sobre relacionamentos amorosos que geralmente fracassaram, tudo sob a ótica diferenciada do músico. São características que regem os 36 minutos de “Tarde”.


Gabriel é o tipo de músico que cria e inventa possibilidades sonoras, sobretudo dentro do estúdio. Efeitos, ruídos, camadas vocais espalhadas pela música, transições, o jeito que alguns instrumentos irrompem nas canções, arranjos por vezes desconcertantes, melodias em camadas. Experimentar e ousar. Essas são as ordens do músico.

Instrumento marcante dentro do álbum, a guitarra assume várias posturas nas faixas. Logo na abertura com ‘O Teste’, a distorção surge após uma sonoridade que parecia calma e com melodia puxada pelos efeitos (que incluem desde ruídos a toques de telefones). O dedilhado perfeito que inicia ‘Unhas (A Busca)’ permite que a carga explosiva surja nos instantes finais. Na faixa ‘A Queda Para o Abraço’, as cordas adicionam um sentido abafador e melancólico para a voz de Ventura que canta: ‘vamos até onde as canções não curam mais, cortar as mãos varrendo os cacos...’


Os outros instrumentos também são estratégicos nas canções. A bateria é performática. Cria muitas vezes um estado caótico, o que acaba colaborando na (des)construção sonora do músico. Caso de ‘Infância’ que a todo instante muda de ritmo com uma batida memorável. A eletrônica que Gabriel usa apresenta suas sutilezas, por mínimas que sejam, acrescentando mais identidade ao propósito do cantor. Uma música que foge de uma estrutura linear e que causa no ouvinte o desejo de juntar as peças e então, dessa forma, montar um novo significado a cada audição, exemplo de ‘O Arquiteto’.


Nenhuma das nove faixas de “Tarde” é de fácil interpretação logo na primeira audição. Isso é um mérito hoje em dia. Estamos diante de um álbum que não exige pressa do ouvinte e que entrega detalhes a cada audição, apesar de não ser tão longo (36 minutos). Culpa de um músico preocupado em criar todo um repertório que foge do lugar comum. Que faz da estrutura complexa de suas canções um encontro do ouvinte com o poder da música.

 

Gabriel Ventura

'Tarde'


Gênero: Rock

Ano de Lançamento: março/2022

Ouça: "Unhas (A Busca)" e "O Teste"

Selo: Balaclava Records


 

NOTA DO CRÍTICO: 7,5

 

Spotify:
















 

Veja o vídeo oficial de “O Teste":


 

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