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Em Monster, Hirokazu Kore-eda é, mais uma vez, cirúrgico com sua arte de contar histórias através do cinema

Lindo, comovente, sincero, devastador e necessário.

Cena do filme Monster de Hirokazu Koreeda
Imagem: Reprodução.


É muito raro não se emocionar ou se envolver por completo nas histórias sobre a vida humana que o sempre cirúrgico Hirokazu Kore-eda nos brinda com seus filmes. Em Monster, não é diferente: aqui, temos uma narrativa suavemente devastadora sobre um sistema que, cada vez mais, trata as relações humanas e a dor do outro como meras insignificâncias do cotidiano. Além de tudo, temos uma narrativa que entrelaça aspectos intrigantes e vitais; daqueles que impulsionam o funcionamento do nosso coração em sua pura e notável essência.


E é sobre isso que Kore-eda quer nos alertar: as situações elencadas na trama de Monster fazem parte do nosso dia a dia, sejam elas manchetes na TV ou em nossas próprias experiências de vida. O fascinante disso tudo é a forma como é contado no filme, que desencadeia uma série de sentimentos; às vezes revoltantes, tristes e, em outras partes, formula laços bonitos e singelos sobre a pré-adolescência e sua fase de descobertas, o aflorar dos sentimentos e paixões. Algo no estilo de Projeto Florida.


Em meio a tudo isso, o ótimo roteiro escrito por Yuji Sakamoto faz um uso assertivo do mistério e do suspense para montar de maneira inteligente o quebra-cabeça instigante em Monster. No longa, acompanhamos a rotina de Saori, uma mãe solteira (Ando Sakura), que começa a perceber um comportamento estranho de seu filho, Minato (Soya Kurokawa). Ao desconfiar que a situação pode envolver o professor da escola, Saori vai descobrir que está lidando com um jogo elaborado por um sistema de frases ensaiadas, onde o intuito é cada vez mais distanciar o foco do problema.



Essas partes do filme são um tanto inquietantes e revoltantes. Sakura consegue transmitir suas reações e sentimentos de uma maneira tão convincente que sentimos, do lado de cá, toda sua revolta em gestos, movimentos e falas que parecem ressoar em um ambiente vazio, tomado pelo desdém e descaso. Muito desse impacto no espectador surge dos enquadramentos de câmera, do bom uso das cores, da fotografia e dos diálogos que vão te conduzindo a começar a tentar encaixar as peças desse quebra-cabeça, um tanto misterioso e repleto de reviravoltas.



Kore-eda é mestre em contar uma história com traços fortes de uma forma singela e sensível. Se você já bateu os olhos em outros filmes do cineasta japonês, como Assunto de Família (2018) e Pais e Filhos (2013), já possui uma bagagem e familiarização com seu jeito único e marcante de falar sobre problemas do cotidiano sem ser apelativo, sempre dosando suas obras com uma certa leveza, mas que toca nos pontos certos de muitas feridas abertas, daquelas que não cicatrizam e vão comendo a pele, aqui no caso, a alma e a inocência infantil.


A forma como o cineasta conduz os atores e seus personagens no filme ajuda a intensificar essa jornada de mistérios que cercam a narrativa. O olhar atento da direção para os detalhes constrói tensão e, ao mesmo tempo, empatia pelo drama e conflitos apresentados. Sem sombra de dúvidas, Monster conquista um lugar de respeito na filmografia do diretor.


O que torna o longa ainda mais rico e envolvente é que, diferente de outras obras do cineasta, a trama aqui se desenvolve através de três pontos de vista: o da mãe, do filho e do professor. Quando essas três perspectivas se juntam, temos um desfecho que vai ficar martelando na sua cabeça por um bom período de tempo. Isso acontece porque você já presenciou ou viveu algo parecido com o que a mãe de Minato vive durante o filme. As dificuldades de criar um filho sozinha em uma sociedade e sistema machistas — aquela velha situação de a vítima se tornar o vilão — são pontos elencados por Hirokazu que vão mexer com você. É difícil ficar indiferente diante das situações abordadas no longa.



Esse tipo de quebra-cabeça, que se torna cada vez mais embaralhado no espaço cronológico da trama, é interessante; e como o diretor trata isso é mais interessante ainda. Ele não repete as cenas, mas sempre as corta antes de chegarmos a um evento que já vimos antes. Esses momentos são intensificados pelo lindo piano de Ryuichi Sakamoto, que morreu em março de 2023. Inclusive, Monster é dedicado a ele.


Mas não se deixe enganar pela trama instigante do cineasta; Monster está longe de ser um filme sobre quem é o culpado, quem fez tal coisa, quem deixou de fazer aquilo. O filme de Kore-eda caminha cada vez mais para uma realidade subjetiva, e é justamente isso que te faz ficar horas e horas refletindo sobre ele.


São várias indagações e situações que levam o espectador a refletir: como essa história se conecta com nossas experiências universais de dor, alienação ou compaixão? Kore-eda, mais uma vez, nos brinda com uma obra bonita, delicada, urgente e necessária. As atuações, tanto de Ando Sakura quanto de Soya Kurokawa, são convincentes e precisas; o roteiro é inteligente e sabe explorar muito bem cada personagem, lidando perfeitamente com os diferentes olhares sobre a história durante o filme. O que faz jus ao prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes deste ano. Lindo, comovente, sincero, devastador e necessário.

 

Monster

Kaibutsu


Ano: 2023

Direção: Hirokazu Kore-eda

Roteiro: Yuji Sakamoto

Elenco: Ando Sakura, Soya Kurokawa, Hinata Hiiragi, Eita Nagayama

Duração: 126 min


 

NOTA DO CRÍTICO: 9,0

 

Trailer:






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