Documentário de John Lennon usa inteligência artificial e levanta debate sobre limites da criação
- Marcello Almeida
- há 17 horas
- 2 min de leitura
Novo filme dirigido por Steven Soderbergh mistura arquivo real e IA para recriar a última entrevista do ex-Beatle

Existe algo delicado quando se mexe com memória. Ainda mais quando essa memória pertence a alguém como John Lennon, uma figura que não é só histórica, mas emocionalmente presente para muita gente até hoje. E é justamente nesse território que o novo documentário dirigido por Steven Soderbergh decide entrar.
Intitulado John Lennon: The Last Interview, o projeto parte de um material simples na forma, mas enorme no significado: a última entrevista concedida por Lennon, durante o período de divulgação de Double Fantasy, ao lado de Yoko Ono. O registro existe apenas em áudio. E é exatamente aí que começa o problema, e também a proposta.
Sem imagens originais para sustentar a narrativa, Soderbergh optou por um caminho que, inevitavelmente, gera discussão: o uso de inteligência artificial generativa para criar parte das cenas. Segundo ele, cerca de 10% do filme será composto por imagens produzidas com essa tecnologia, desenvolvida em parceria com a Meta.
Mas o ponto central não é técnico. É conceitual. O diretor deixou claro que não se trata de reconstruir a realidade de forma literal. Não é sobre tentar “mostrar” algo que aconteceu exatamente daquela forma. A intenção, nas palavras dele, é outra: criar imagens com caráter mais abstrato, quase metafórico, especialmente nos trechos mais reflexivos da entrevista. Não preencher lacunas, mas traduzir sensações.
E isso muda completamente o tipo de debate.
Porque, quando a inteligência artificial entra nesse campo, a questão deixa de ser apenas estética. Passa a ser ética, emocional, até filosófica. O que significa representar alguém que já não está aqui? Onde termina a interpretação artística e começa a reconstrução artificial?
E, talvez mais importante: o público está preparado para esse tipo de linguagem? A resposta, pelo menos neste caso, parece ter algum respaldo dentro da própria história do artista. Sean Ono Lennon afirmou que acredita que o pai teria interesse nesse tipo de tecnologia, justamente por seu histórico de experimentação e abertura ao novo durante os tempos dos Beatles.
Não é um detalhe pequeno. É quase uma espécie de autorização simbólica. Se você parar pra pensar, essa escolha dialoga com algo maior. Lennon sempre esteve ligado à ideia de expansão, seja musical, estética ou conceitual. Ele nunca foi um artista preso ao formato tradicional. Então, de certa forma, usar uma tecnologia que ainda está sendo compreendida pode até parecer coerente com o espírito dele. Mas isso não elimina o desconforto. E talvez nem devesse.
Porque esse tipo de projeto abre uma porta que dificilmente será fechada. Hoje, são 10% de um documentário. Amanhã, pode ser mais. Pode ser outro artista. Pode ser uma reconstrução completa. E aí a discussão deixa de ser sobre um filme específico e passa a ser sobre o próprio futuro da narrativa audiovisual.
John Lennon: The Last Interview estreia ainda este mês no Festival de Cannes. E, independentemente da recepção, já cumpre um papel importante: colocar essa conversa na mesa.
Porque, no fim, não é só sobre recriar o passado, é sobre decidir como queremos lembrar dele.
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