David Bowie nunca foi apenas um camaleão, foi a coragem de se desmontar em público
- Marcello Almeida

- há 24 horas
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Bowie foi aquele artista que transformou o próprio colapso em linguagem artística

Quando paro para pensar em tudo que David Bowie representa para o mundo, digo o mundo em um contexto geral, não apenas ao circuito da cultura pop, da música pop. Entre idas e vindas, viajando por suas obras, tanto filmes como a extensa e bela discografia, comecei a querer ir muito além daquela imagem formada sobre ele.
Muita gente, eu estou entre elas, quando vai falar sobre ele, acaba por não explorar um detalhe importante. David Bowie não foi só um artista que mudava de persona. Ele foi um “ser de outro planeta” que ensinou o público a lidar com a própria fragmentação, com a própria existência.
Falar de toda a revolução que Bowie promoveu é complexo, ela nunca esteve apenas na estética. Ela pulsa e vive na ideia de que identidade pode muito bem ser um processo contínuo da própria edição.
A verdade mesmo é que a gente se acostumou e acabou por passar anos idealizando e repetindo que Bowie era o tal camaleão do rock. Aquele homem poderoso, incrível, que vivia trocando de pele, de cabelo, de personagem, como alguém que muda de uma estação para a outra. Claro que isso formula, no imaginário de toda uma legião de fãs, gerações e gerações, aquela imagem bonita, até mesmo fácil, eu diria até mesmo didática. Mas você, aí que está lendo isso agora, já parou para pensar que talvez ela simplifique demais o que estava acontecendo de fato ali?
Olha só, camaleões se adaptam, né? Fazem isso o tempo todo para sobreviver sem serem vistos. Olhando para Bowie, ele fazia o contrário. Ele se desmontava em público, em vida.
Vamos pegar o Thin White Duke, ele não é somente um personagem elegante de colete, com aquele olhar vazio, penetrante e viciante. É um artista vivendo à beira do esgotamento, aparência magra demais, perdido demais, atravessado por excessos e toda a paranoia que cerca a mente humana. Aquilo não foi escondido depois. Não virou nota de rodapé. Todo aquele conceito criado virou parte da obra. Virou parte da narrativa.
A fase Berlim mesmo, quando ele se muda para lá, não está apenas buscando inspirações ou uma nova estética sonora. Ele quer organizar a própria vida, se encontrar consigo mesmo. Achar que toda aquela experimentação, chamada de trilogia berlinense, nasceu apenas de uma mera jogada intelectual é frio demais, raso demais. Aquilo ali foi além, algo muito maior. Aquilo faz mais sentido porque nasce da necessidade de reconstrução. É o som de um homem tentando se juntar, se recompor.
Se olharmos para os anos 80, ele simplesmente abraça de corpo e alma o pop de arena com Let's Dance. O Bowie dos anos 80 vira gigante, passa a dominar rádios, estádios, televisão. Mas o tempo passa e todo aquele sucesso começa a virar uma prisão. A estética começa a virar um peso insustentável, como se a máquina começasse a engolir seu próprio criador. Bowie era além do seu tempo, inteligente demais para se prender nessas armadilhas. Ele percebe, admite e recalcula, e não finge que tudo passou de um plano perfeito.
Já nos anos 90, no coração de um público ansioso, pulsava a nostalgia. Na verdade, era o que se esperava. E ele simplesmente entregou Outside, um disco totalmente fragmentado, acho que essa é a melhor palavra. Se você prestar atenção, aquela narrativa sustenta incômodo e ainda beira aquela atmosfera claustrofóbica. Aquilo não era conforto, muito menos comercial. Aquilo era risco, era fricção.
O que Bowie fez ao longo de décadas foi justamente normalizar o colapso como parte do processo criativo. Ele nunca construiu aquela trajetória limpa, construiu uma trajetória honesta. Teve excessos, quedas, recomeços e desvios pelo caminho.
A gora eu chego onde eu queria chegar. Vai ver é por isso que ele conversa tanto com a nossa atualidade, com o tempo no qual estamos vivendo. Ele não está fisicamente aqui, mas seu legado permanece.
A gente vive cercado por telas que não se apagam, por uma pressa que não se explica. Vivemos em cidades que nunca dormem, aí vem aquela obrigação permanente de parecer sempre funcional, produtivo, coerente. Existe muita pressão envolvida para simplesmente manter uma identidade estável. Um perfil consistente. Uma narrativa organizada.
Mas ninguém é linear.
A vida nas grandes cidades é feita de reinvenções forçadas. De fases que acabam antes de a gente entender de fato o que eram. De empregos que desmoronam, relações que se quebram, certezas que evaporam ainda no meio do trânsito.
Bowie antecipou isso. Ele mostrou que é possível transformar a instabilidade em linguagem. Que ruir não é necessariamente desaparecer. Às vezes, é o começo de outra versão. Ele não romantizava o caos. Ele trabalhava com ele. Talvez por isso continue tão atual. Não porque mudou de figurino muitas vezes, mas porque teve coragem de admitir, em plena luz, que identidade é algo em construção permanente. Que ninguém precisa ser uma versão definitiva de si mesmo.
Num mundo que exige solidez o tempo todo, Bowie ensinou que a fissura também é forma. E isso, hoje, soa mais revolucionário do que qualquer maquiagem.










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