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Crônica: A vez em que a menina de camiseta do Cramps chorou no show do Jão

A primeira coisa que notei foi uma estrutura gigantesca armada, com uma passarela de mais de 60 metros em forma de arco.

Jão No Allianz Parque, em 21 de janeiro. Imagem ? Staff Images
Jão No Allianz Parque, em 21 de janeiro. Imagem ? Staff Images


Neste último fim de semana, dias 20 e 21 de janeiro, o Jão deu start na sua Superturnê. E pra mim, uma pessoa ainda cheia de preconceitos musicais, o fato teria passado despercebido.


Mas eu tenho uma sobrinha que é fã dele e por isso fez minha irmã, passar pelo seguinte processo: levá-la a um show do Jão certa vez sem conhecer sequer uma música, gostar da apresentação dele, querer ouvir mais músicas quando chegasse em casa e terminar fã também.


De presente, minha sobrinha ganhou ingressos para as duas noites, no Allianz Parque em São Paulo, cidade onde moramos. O combinado seria as duas irem juntas nos dois dias, mas a vida não quis assim. Como resultado, eu levaria a minha sobrinha em uma das noites, no domingo.


Chega o dia. Baita ressaca do sábado, chuva e um pouco de frio. Eu queria ficar em casa, enxugando todas as garrafas de isotônico que eu pudesse. Mas não basta ser tia, tem que participar. Com que roupa eu vou? Perguntei pra minha irmã se seria muita afronta ir com uma camiseta do Queen. Minha irmã respondeu que na noite anterior ela viu algumas pessoas com camiseta de banda de Rock. Pensei "Então vou com a minha do Cramps!" De alguma forma, ainda queria fazer algum tipo de protesto ao pop.



Antes de ir perguntei pra minha irmã se ela gostaria que eu gravasse alguma coisa. Ela me respondeu que ele provavelmente cantaria uma música chamada "Monstros", me pediu pra gravar. Ao encontrar a música para conhecer, já tive um primeiro sinal: me deu um nó na garganta.


“Me sinto só desde criança Mesmo com gente ao meu redor Sempre lutei por liberdade, mas ser livre me fez só...”


           Imagem do alto do Allianz Parque. Imagem: Staff Images
Imagem do alto do Allianz Parque. Imagem: Staff Images

Depois de encarar a chuva no caminho e entrar no estádio, outro sinal de alerta: senti aquele arrepio que sempre sinto ao entrar em um estádio. Dei de cara com o palco montado, com aquele nó na garganta se apertando um pouco mais.


A primeira coisa que notei foi uma estrutura gigantesca armada, com uma passarela de mais de 60 metros em forma de arco, por onde o cantor desfilaria fazendo os maiores carões. Havia dois telões gigantes que durante o show se mesclariam com fundos temáticos e entre eles uma telão gigantesco, talvez de uns 30 metros de altura, envolvido por um dragão branco esculturado cuja asa se movia conforme o vento.


Comecei a observar o público, pois uma das coisas que minha irmã me contou era o quanto a galera é de boa. Acostumada a shows de Rock, o normal é ver um monte de gente dando mais valor à cerveja do que ao evento. Briga por causa de lugar, quem passou na frente de quem, empurra-empurra, fila no banheiro de virar a esquina, pessoal da pista xingando o pessoal da pista premium, tudo isso já faz parte de uma rotina de shows a qual já me dá muita ansiedade quando vou assistir alguma banda de Rock. Lá não vi nada disso. Foi quando eu pensei que essa nova geração tem muito o que ensinar pra velha guarda.



Minutos antes do show, eu já fazia parte daquilo. Já prestava atenção na música ambiente, na parte técnica tendo seus últimos ajustes feitos, na gritaria e entusiasmo da plateia, formada por muita gente que ainda nem tinha nascido quando fui no meu primeiro show. Eu já estava emocionada e comovida. Pela minha vida nos últimos anos, por minha irmã que deveria estar ali e não eu, por estar fazendo algo com a minha sobrinha. Nada melhor do que aquele momento em que você vê o movimento de um estádio se enchendo de gente, sem sinal no celular, pra poder só ficar sentada e esperar. E pensar na vida. Foi quando eu pensei e prometi pra mim mesma que não importa o que me aconteça, eu sempre vou me dar esse tipo de presente.


Em dado momento, aparece a backing vocal Francine Môh, em vídeo, anunciando as músicas que iriam concorrer para entrar no setlist. A que fizesse a galera gritar mais seria tocada. As opções foram “Clarão” E “Barcelona” (Barcelona venceu e eu ajudei a escolher, entrando no coro que minha sobrinha e as amigas delas entraram).


Aos 60, 15 e 1 minutos antes do show, rolou uma contagem regressiva, que já me fez os olhos encherem d'água. Eu já estava encantada com aquele mar de luzes das pulseirinhas que estávamos usando e de ver aquele estádio todo iluminado e lindo.



Quando Jão surgiu no palco, fato que eu só consegui entender com clareza assistindo depois pela TV, ele estava com o visual todo de preto e brilhante cantando “Escorpião”. Vi aquela garotada toda gritando alucinada e aquela energia me reabasteceu de uma forma inimaginável. Repito que eu não sabia sequer uma letra, arriscava um ou outro refrão, mas gritei sim, aplaudi e quis fazer parte daquilo de alguma forma. Não conseguia ver bem a minha sobrinha, mas as raras vezes que consegui olhar pra ela, ela estava feliz. Então eu estava também.


 Jão No Allianz. Imagem: Staff Images
Jão No Allianz. Imagem: Staff Images

A proposta do show era dividir sua carreira nos quatros elementos da natureza (e isso eu só fui entender depois). Na parte terra, ele cantou “Game Boy”, “Vou Morrer Sozinho” e a “Monstros”, a música que minha irmã me pediu pra gravar.


Chorei.


Na parte ar, Jão foi suspenso até o alto da estrutura central, e o telão dela formou a imagem de um edifício, onde ele, no alto, parecia observar uma cidade de cima. Fez isso para cantar “A última Noite”. E em uma das partes mais bonitas, o elemento água foi abraçado pela chuva que voltou a cair em São Paulo.



Entre o som pop dançante e as músicas mais lentas, a banda dele foi parte essencial para que o espetáculo fosse completo. A banda do Jão me lembrou a E-Street Band do Bruce Springsteen inclusive em como eles estavam posicionados no palco. Deram um show de energia, alegria e talento. A dupla de metais e baixista Alana merecem uma menção honrosa aqui. A participação do público também faz parte. Teve a carta que Jão costuma entregar para algum fã, a música escolhida (Barcelona) e o momento fofura onde ele chama a pequena Maju de cinco anos no palco para cantar com ele.


E para fechar com o elemento fogo ele disparou mais sucessos que fez a garotada e os adultos presentes cantarem, gritarem, os casais tão jovens se abraçarem e se beijarem celebrando. Até o Jão deu um baita beijo no seu diretor artístico e sócio, Pedro Tófani, responsável por idealizar toda a parte visual do espetáculo, ou seja, uma das partes mais importantes para que aquela noite no Allianz fosse especial. No fim, claro, queima de fogos e um bis de “Alinhamento Milenar”. E por aqui, mais lágrimas. Me rendi. De camiseta do Cramps, naquela noite eu era pop.


Só no fim do show me toquei que usei muito pouco o celular. Queria estar ali presente, honrando minha irmã e abrindo minha mente para o novo. Em vários momentos me lembrei de ídolos dos anos 80 que tanto tiveram que brigar para não esconder sua sexualidade, para falar de amor de uma forma fluída e que por isso foram julgados e hostilizados: Renato Russo, Cazuza, George Michael estariam orgulhosos naquele momento. Aquele menino do interior sabe falar de amor com talento, não precisando ocultar nada, digno e divo nas músicas, nos carões, forma de andar e em cada gesto. A noite era de todos nós, mas era principalmente dele.


Enquanrto isso, pela TV, minha irmã viu a entrevista feita pela apresentadora do Multishow Laura Vicente. Quando ela encontrou o Jão, ambos se abraçaram e choraram emocionados. Vi depois que antes de usar o figurino da transmissão, ela vestia uma camiseta do Queen.


A turnê segue ainda com datas pelo país inteiro. Enquanto termino estas linhas, soube que no ano que vem, Jão vai repetir a dose no Allianz Parque, com data marcada: 18 de janeiro. Com essa notícia, uma pequena parte das minhas magias já se concretizam: Nós três juntas (minha sobrinha, minha irmã e eu) para assisti-lo com dinheiro e saúde para desfrutar do momento. Quem sabe?





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