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'Cowboy Carter', parte 2 da trilogia 'Renaissance', mistura as raízes da música norte-americana com o pop de Beyoncé


Apesar de ser um álbum com raízes sulistas da música tradicional dos EUA., 'Cowboy Carter' também pode ser considerado um trabalho versátil e plural.

Beyoncé
Foto: Divulgação/Instagram


Pra quem ficou parado no tempo ou não costuma acompanhar os nomes mais comerciais da música, falar sobre Beyoncé significa falar sobre o estereótipo do pop: Uma diva, que com base eletrônica faz músicas comerciais, seguidos de videoclipes de visual impecável.


Talvez lá atrás, logo após Beyoncé se lançar em carreira solo, pode ter sido. Mas como todo artista talentoso e dotado de brilho próprio, a consequência do trabalho duro resulta em amadurecimento.


Amadurecimento que a cantora traz junto com boas doses de ousadia ao lançar a segunda parte da trilogia de Renaissance. Se a primeira homenageou a dance music dos anos 70 e 80, desta vez a artista focou menos no pop e nos ritmos dançantes, arriscando as fichas na música de raiz, no sentimento e na força que vem da música country.


Beyoncé nasceu e foi criada em Houston, no Texas. Graças à família, principalmente ao seu avô, desde criança ela teve contato com a música country, o que faz do novo álbum um resgate às memórias de infância. Talvez alguns de nós saibam o que a música que ouvimos desde criança faz na formação de nosso estilo pessoal, desde simples gosto para as horas de lazer até as escolhas profissionais. No caso de Beyoncé, as raízes começaram a aparecer no seu álbum Lemonade, de   2016, com a faixa 'Daddy Lessons'.



A gravação de 'Daddy Lessons' trouxe uma resposta nada agradável da comunidade country americana, e muitas críticas foram criminosas e racistas. Ao invés de Beyoncé dar um tempo com o estilo, ela fez o contrário: colocou toda sua energia para mergulhar nas raízes do country e provar através de pesquisas, que existiram cowboys negros na história e que injustamente o fato ficou oculto. Beyoncé decidiu assim, resgatar a música americana e country através de uma perspectiva negra.


E assim nasceu 'Cowboy Carter'. Um álbum de 27 faixas e que não tem apenas o country como base. Algumas músicas contém elementos do trap, hip hop, rock e até o nosso funk carioca. A faixa 'Spaghetti' é um mix de hip hop com o sample de 'Aquecimento das Danadas', dos DJs Mandrake e Xaropinho.


Simplesmente não pode-se aqui descrever as 27 faixas do álbum, ou esta resenha ficaria cansativa de ler. Além do mais, seria falta de sensibilidade classificar 'Cowboy Carter' como uma célula separada da carreira da artista. Ele é parte do todo de uma trilogia que pode ser tudo, menos rotulável.


O álbum abre com a força e beleza de ‘AMERIICAN REQUIEM’, que nos embala para a viagem que é o álbum. É como se estivéssemos de fato em uma estrada, em uma viagem não apenas pelas estradas norte-americanas que vimos em filmes e séries, mas também é uma viagem musical, onde as paradas são cada camada envolvida na versatilidade de Beyoncé.



Durante essa viagem, você passará por uma estação de rádio mais que especial, contando com artistas da música country como DJs da estação: Willie Nelson, em ‘SMOKE HOUR' e 'SMOKE HOUR ll', Dolly Parton, em ‘DOLLY P’ e Linda Martell em ‘THE LINDA MARTELL SHOW’.


No álbum podemos descobrir releituras de clássicos como 'Blackbird', dos Beatles e 'Jolene', de Dolly Parton, que não só deu sua bênção, como há muito dizia que queria que sua música fosse regravada pela cantora. Ela também participa de uma das vinhetas do álbum, como citado anteriormente. O rock se mantém presente em 'II MOST WANTED', onde há uma interpolação de 'Landslide', do Fleetwood Mac, e talvez uma inspiração da mesma banda em 'ALLIGATOR TEARS'.


Os singles  ’16 CARRIAGES’ e  ‘TEXAS HOLD’EM’ ganharam o coração dos fãs desde que foram tocadas pela primeira vez, no Super Bowl de 2024. ‘Texas...,' inclusive, liderou o Chart Country da Billboard, mantendo-se com dignidade na primeira posição.


Outro destaque deste trabalho tão plural são as participações especiais: Você pode ouvir Post Malone na romântica 'LEVII´S JEANS’, Willie Jones em ‘JUST FOR FUN’, Rumi Carter na forte ‘PROTECTOR’ e Miley Cyrus em um clima de nostalgia sulista pós-moderno em ‘II MOST WANTED’.  



No final do álbum, Beyoncé mostra que não abandona o pop e o eletrônico que a acompanham desde sempre. Faixas como ‘SWEET HONEY BUNKIIN’, que conta com a participação de Shaboozei, não deixa esta que vos escreve mentir. ‘DESERT EAGLE’, ‘RIIVERDANCE’, ll HANDS II HEAVEN’, também não me deixam mentir. Talvez estas músicas no fim do álbum mostre que a trilogia feche no futuro com um álbum hip hop, quem sabe...


Vale um destaque para a participação de Dolly Parton em ‘TYRANT’, que é uma faixa extremamente contemporânea, colocando a madrinha do 'Cowboy Carter' nesse lugar.E quando ouvimos a faixa final, 'AMEN', a imagem que nos surge são as das igrejas e cantos de louvor, característicos dos contos do sul dos Estados Unidos, com coral, teclados, melodia e emoção, porém finalizando com uma passagem secreta para o que será a parte final da trilogia.


Apesar de ser um álbum com raízes sulistas da música tradicional dos EUA., 'Cowboy Carter' também pode ser considerado um trabalho versátil e plural. É pra ser ouvido com calma e com uma certa gama de análise. Ele prova que Beyoncé não é apenas uma diva pop se apoiando no visual, embora esse estigma ela já tenha superado há anos.



Ele é digno de fechar a boca e calar os argumentos embasados em puro preconceito musical e racial. Rompe barreiras de estilos, países e gêneros, tanto no contexto histórico quanto artístico. Nos fazendo pensar em como essa trilogia terminará. Por aqui, aguardamos curiosos e um tanto satisfeitos.

 

Cowboy Carter

Beyoncé


Lançamento: 2024

Gêneros: Country, Pop, Hip Hop, Trap

Para quem gosta de: Dolly Parton, Fleetwood Mac, hip hop

Ouça: '16 CARRIAGES', 'JOLENE', AMERIICAN REQUIEM', 'AMEN'


        


 

Nota da crítica: 10

 


 

 

 

 

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