Como uma leitura de tarô inspirou Paul McCartney a escrever "The Fool on the Hill"
- Marcello Almeida
- há 22 horas
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Paul McCartney revelou que uma carta recorrente em leituras de tarô influenciou a criação de uma das músicas mais enigmáticas do Magical Mystery Tour

No fim da década de 60, os Beatles ampliavam cada vez mais seus horizontes criativos. Além das experimentações musicais, o grupo demonstrava interesse por filosofias orientais, meditação e diferentes formas de espiritualidade, temas que acabariam atravessando diversas composições daquele período.
Foi nesse contexto que surgiu uma das inspirações para "The Fool on the Hill", lançada em 1967 no álbum Magical Mystery Tour.
Em Many Years From Now, publicado em 1997, Paul McCartney contou que a ideia nasceu após uma série de leituras de tarô feitas pela artista holandesa Marijke Koger. Ao lado de Simon Posthuma, Koger havia colaborado com os Beatles durante o desenvolvimento visual de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, aproximando-se do círculo criativo da banda.
McCartney admitiu que nunca se sentiu completamente confortável com esse tipo de prática.
"Eu conhecia Marijke, ela era uma garota de aparência muito marcante. Ela costumava ler minha sorte com cartas de tarô, algo que eu não gostava muito porque não queria tirar a carta da morte um dia. Ainda não gosto desse tipo de coisa porque sei que minha mente vai ficar remoendo isso."
Apesar da resistência, uma mesma carta aparecia repetidamente durante as leituras: O Louco.
"Eu sempre evitava essas coisas, mas, na verdade, sempre saía O Louco", lembrou. "E eu dizia: 'Ai, meu Deus!', e ela respondia: 'Não, não, não. O Louco é uma carta muito boa. À primeira vista, parece boba, mas na verdade é uma das melhores cartas, porque representa a inocência, a criança, essa é a interpretação do Louco.'"
A interpretação chamou a atenção de McCartney justamente por inverter a expectativa criada pelo nome da carta. Em vez de representar alguém sem discernimento, O Louco simbolizava abertura, curiosidade e disposição para seguir um caminho próprio, mesmo sem compreender completamente o destino.
Essa ideia encontrou espaço em "The Fool on the Hill". Na canção, o personagem observado pelos outros como alguém excêntrico ou ingênuo é, na verdade, quem enxerga aquilo que passa despercebido pela maioria. Logo nos versos iniciais, McCartney apresenta essa perspectiva:
"Dia após dia, sozinho em uma colina / O homem com o sorriso tolo / Permanece perfeitamente imóvel / Mas ninguém quer conhecê-lo / Eles podem ver que ele é apenas um tolo / E ele nunca dá uma resposta."
A imagem dialogava com o momento vivido pelos Beatles. Naquele período, os integrantes exploravam diferentes tradições espirituais e buscavam novas formas de compreender o mundo, frequentemente transformando essas referências em personagens e metáforas, sem apresentá-las como verdades absolutas.
Décadas depois, McCartney continuou associando "The Fool on the Hill" àquela experiência com Marijke Koger. A carta que inicialmente despertava receio acabou oferecendo uma nova maneira de olhar para a figura do "tolo": alguém que pode parecer deslocado aos olhos dos outros, mas que encontra valor justamente na liberdade de seguir um caminho diferente.
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