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Como Pink Floyd transformou caos e desgaste em um de seus álbuns mais sombrios

Entre limitações técnicas, conflitos internos e uma Inglaterra em crise, Animals nasceu como o disco mais áspero da banda.

Pink Floyd
Imagem: Reprodução

Podemos dizer que o ecletismo sempre foi uma das grandes forças do Pink Floyd. Poucas bandas conseguiram atravessar tantas paisagens sonoras diferentes sem perder sua alma e identidade.


Eles começaram mergulhados na psicodelia espacial do fim dos anos 60, passaram por experimentações quase abstratas e, aos poucos, foram encontrando uma linguagem própria que misturava rock progressivo, blues, jazz e ambição numa escala raramente vista até então.


Mas existe algo em Animals, lançado em 1977, que o torna diferente até mesmo dentro da discografia da banda. E é disso que vamos falar hoje.


Esse disco não possui aquele brilho, digamos, quase perfeito encontrado em The Dark Side of the Moon. Ele também não carrega a melancolia contagiante de Wish You Were Here. O que existe ali, dentro daquelas canções, é outra coisa: tensão, desgaste, cinismo e uma sensação constante de desconforto.


E talvez seja justamente isso que faça do disco uma das obras mais fascinantes do grupo.



Depois do sucesso gigantesco de Wish You Were Here, a banda decidiu abandonar o conforto técnico do Abbey Road Studios e gravar seu próximo trabalho em casa, no recém-construído Britannia Row Studios, em Londres.


A ideia parecia ótima no papel. Na prática, porém, o estúdio ainda estava longe de oferecer a mesma estrutura impecável dos lendários estúdios da EMI. Anos depois, Nick Mason admitiu que Animals talvez tenha sido o álbum mais difícil que o grupo já gravou do ponto de vista técnico.


“Foi feito na mesma época em que o punk estava começando, e este era o nosso próprio estúdio, construído com um orçamento limitado.”


Ele continuou:


“Todas as nossas gravações anteriores foram feitas em Abbey Road, onde os padrões eram altíssimos. O equipamento era bom no nosso estúdio, mas não era tão bom.”



Nick Mason do Pink Floyd
Crédito: TIDAL

Curiosamente, esse desgaste técnico acabou funcionando a favor do disco. Porque Animals precisava soar assim: sujo, desconfortável, quase claustrofóbico. A Inglaterra de 77 também estava esgotada. Greves, tensão econômica, ressentimento social e um sentimento crescente de frustração atravessavam o país. Enquanto o punk explodia nas ruas, Roger Waters absorvia tudo isso e despejava no álbum uma visão amarga sobre poder, alienação e brutalidade humana.


Faixas como “Dogs” e “Pigs (Three Different Ones)” parecem carregar exatamente esse peso. Não são músicas polidas. São músicas que arranham.





E existe outro detalhe importante: Animals também marca o momento em que o Pink Floyd começa claramente a deixar de parecer uma banda equilibrada entre quatro personalidades diferentes. A visão de Waters passa a dominar quase tudo por lá.


O trabalho imensurável das guitarras de David Gilmour ainda é fundamental para o impacto do disco, especialmente em faixas como “Dogs”, mas o clima das gravações já apontava para uma relação mais fria entre os integrantes.


O senso coletivo que existia em discos anteriores começava lentamente a desaparecer.

Talvez por isso o álbum tenha uma atmosfera tão inquietante. Nick Mason chegou a lembrar de um episódio caótico durante as sessões:


“Lembro de Roger e eu supervisionando um solo de guitarra do David e apagando aquilo por acidente… Isso era algo que você nunca veria em Abbey Road.”


A frase parece pequena, mas diz muito sobre o estado mental da banda naquele período.

O Pink Floyd ainda era gigantesco artisticamente, mas já começava a funcionar sob tensão constante.




Décadas depois, a remixagem de 2018 reacendeu velhas disputas internas entre Waters e Gilmour. Até mesmo as notas de encarte viraram motivo de conflito, especialmente por causa dos créditos de composição do álbum. De certa forma, isso também combina perfeitamente com Animals.



Porque ele é um disco que nunca pareceu confortável dentro da própria história do Pink Floyd. É pesado emocionalmente, tecnicamente imperfeito e carregado por uma sensação constante de desgaste humano. E talvez seja exatamente por isso que tanta gente o ame.


Enquanto outros álbuns da banda parecem olhar para o cosmos, Animals encara diretamente o pior da natureza humana.



O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

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