Como os atentados de 11 de setembro inspiraram uma das obras mais perturbadoras de Lou Reed
- Marcello Almeida

- há 6 horas
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Dois dias após a tragédia que marcou os Estados Unidos em 2001, Lou Reed entrou em estúdio para transformar choque, luto e confusão em uma composição sem palavras

Ao longo da carreira, Lou Reed construiu uma reputação baseada na recusa em seguir expectativas. Desde os tempos em que liderava o Velvet Underground, preferiu explorar caminhos pouco convencionais, escrevendo sobre personagens, ambientes e experiências que raramente encontravam espaço no rock de sua época.
Essa postura permaneceu em sua trajetória solo. Mesmo quando lançava discos que conquistavam maior reconhecimento comercial, Reed costumava responder com projetos experimentais, aproximando sua música da poesia falada, do ruído, da música ambiente e de outras formas de expressão que desafiavam o público.
No início dos anos 2000, essa busca o levou à criação de The Raven, álbum duplo lançado em 2003 e inspirado na obra de Edgar Allan Poe. Entre as faixas do disco está "Fire Music", uma composição que nasceu em circunstâncias muito particulares.
A peça foi escrita e gravada em 13 de setembro de 2001, apenas dois dias depois dos ataques terroristas contra o World Trade Center, em Nova York, que deixaram milhares de mortos. A proximidade temporal tornou a obra inseparável daquele momento histórico. Além disso, a gravação aconteceu em um estúdio localizado a poucos quarteirões do local da tragédia.
Em entrevista concedida à revista Uncut em 2003, Reed explicou que a composição surgiu como uma resposta emocional aos acontecimentos, ainda que não pudesse traduzir seus sentimentos em palavras.
"Tudo o que vivi está nessa música", afirmou ao comentar "Fire Music". "Eu realmente quero dizer que não consigo resumir em palavras, é para isso que a música serve. É uma peça muito concisa, tocada em tempo real. Não é em loop. É a irmã mais velha de Metal Machine Music, o próximo passo."
Diferentemente da maior parte de sua obra, "Fire Music" não possui letra. A composição é construída sobre camadas de ruído, mudanças constantes de ritmo e uma atmosfera inquietante, elementos que Reed associava às emoções provocadas pelos atentados.
"O que eu gosto é que não tem uma tonalidade definida e o ritmo está sempre mudando", explicou. "Uma forma de música muito livre, da qual sou fã desde os tempos de Ornette Coleman e Albert Ayler."
A faixa acabou ocupando um lugar singular em sua discografia. Em vez de buscar conforto ou oferecer respostas, Reed registrou uma reação imediata ao impacto dosacontecimentos. O resultado foi uma obra que reflete o estado de espírito de um artista diante de uma tragédia que ainda estava em curso na memória coletiva, reafirmando sua disposição de seguir a própria intuição mesmo quando isso significava produzir uma das gravações mais difíceis de sua carreira.
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