Brasil 70: A Saga do Tri. A série da Netflix que recria com emoção a conquista da Copa do Mundo de 1970
- Alexandre Tiago

- há 1 dia
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Mais do que uma série sobre futebol, Brasil 70: A Saga do Tri é uma obra sobre identidade nacional, liderança, trabalho coletivo, superação e memória histórica

A história da Seleção Brasileira de 1970 costuma ocupar um lugar privilegiado em qualquer debate sobre as maiores equipes da história do futebol. Com Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino, aquele time encantou o mundo ao conquistar a Copa do Mundo do México e trazer definitivamente a Taça Jules Rimet para o Brasil após a vitória por 4 a 1 sobre a Itália na decisão.
Embora esse capítulo do esporte brasileiro seja amplamente celebrado, durante muito tempo faltou uma produção audiovisual capaz de explorar seus bastidores, os conflitos internos e o contexto político que cercou aquela conquista. Essa lacuna começa a ser preenchida com "Brasil 70: A Saga do Tri", minissérie da Netflix produzida em parceria com a O2 Filmes, que transforma um dos momentos mais emblemáticos da história do futebol brasileiro em um drama esportivo envolvente, humano e emocionante.
Dividida em cinco episódios, a produção acompanha a campanha da Seleção Brasileira rumo ao tricampeonato mundial, retratando acontecimentos marcantes como a saída do técnico João Saldanha, a chegada de Zagallo ao comando da equipe e a preparação para a Copa do Mundo de 1970. Paralelamente, a narrativa evidencia o contexto da Ditadura Militar, mostrando como esporte, sociedade e política caminharam lado a lado naquele período.
Um dos maiores méritos da série está justamente na maneira equilibrada como aborda essa relação. Sem reduzir a história apenas ao futebol, a produção evidencia que a campanha da Seleção ocorreu em meio a um dos períodos mais delicados da história brasileira. Enquanto o país vivia restrições às liberdades individuais e intensa repressão política, milhões de brasileiros encontravam no futebol um raro momento de esperança, identidade coletiva e celebração nacional após a frustrante campanha na Copa do Mundo de 1966.

Esse contexto amplia significativamente o alcance dramático da obra. Mais do que narrar partidas históricas, Brasil 70: A Saga do Tri constrói um retrato humano de seus personagens, explorando dúvidas, conflitos, responsabilidades e sentimentos que existiam longe dos gramados. O resultado é uma narrativa sensível, dinâmica e muito bem estruturada, capaz de envolver tanto os apaixonados por futebol quanto quem aprecia boas produções históricas.
O elenco contribui decisivamente para essa imersão. Rodrigo Santoro entrega uma das interpretações mais marcantes de sua carreira ao dar vida a João Saldanha. Seu desempenho transmite com autenticidade o temperamento forte, o carisma, a inteligência política e a personalidade combativa do treinador, tornando-o um dos personagens mais fascinantes da minissérie.
Outro grande destaque é Bruno Mazzeo. Conhecido principalmente por seus trabalhos na comédia, o ator surpreende ao interpretar Zagallo com intensidade dramática, segurança e enorme sensibilidade. Sua composição evidencia as dificuldades enfrentadas pelo treinador para assumir uma seleção cercada por enorme pressão e expectativas, demonstrando versatilidade artística em um dos melhores papéis de sua trajetória.
Lucas Agrícola também merece reconhecimento ao interpretar Pelé. A caracterização impressiona pela semelhança física e pelos gestos cuidadosamente reproduzidos, enquanto sua atuação transmite a tranquilidade, o talento e o protagonismo que fizeram do Rei do Futebol uma das maiores figuras da história do esporte mundial.
O restante do elenco mantém o excelente nível da produção. Marcelo Adnet, Ravel Andrade, Val Perré, Lara Tremouroux e José Beltrão entregam interpretações consistentes, contribuindo para construir um ambiente convincente e emocionalmente rico. Cada personagem recebe espaço suficiente para desenvolver sua personalidade e reforçar a dimensão coletiva daquela conquista histórica.
Tecnicamente, a série também impressiona. A direção assinada por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles conduz a narrativa com ritmo envolvente, enquanto o roteiro de Naná Xavier e Rafael Dornellas combina precisão histórica, emoção e dinamismo. A fotografia recria com competência a atmosfera dos anos 1970, a direção de arte valoriza os detalhes de época e a trilha sonora complementa perfeitamente a experiência, intensificando a carga dramática de diversos momentos.
O cuidado com a ambientação faz com que cada episódio transporte o espectador para um dos períodos mais emblemáticos da história do futebol brasileiro. Os bastidores da Seleção, os treinamentos, os conflitos internos e o clima vivido durante a Copa do Mundo são apresentados com qualidade cinematográfica, evidenciando o elevado nível técnico da produção nacional.
Mais do que uma série sobre futebol, Brasil 70: A Saga do Tri é uma obra sobre identidade nacional, liderança, trabalho coletivo, superação e memória histórica. Ao revisitar uma conquista que marcou gerações, a produção também convida o público a refletir sobre o contexto social em que ela aconteceu e sobre o impacto que aquele título exerceu na construção da cultura esportiva brasileira.
Seja para quem acompanhou essa história ou para quem deseja conhecê-la pela primeira vez, a minissérie oferece uma experiência emocionante, informativa e visualmente impecável. É mais uma demonstração da maturidade alcançada pelo audiovisual brasileiro, que vem produzindo obras cada vez mais ambiciosas, tecnicamente refinadas e capazes de dialogar com diferentes públicos.
Brasil 70: A Saga do Tri não apenas revive uma das maiores campanhas da história das Copas do Mundo, como também reafirma o potencial das produções brasileiras ao transformar um episódio histórico em uma narrativa emocionante, respeitosa e profundamente humana. Uma série indispensável para amantes do futebol, da história do Brasil e do cinema nacional.

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