Andar na Pedra – A história do Raimundos: quando talento e tensão caminham lado a lado
- Emmanuelle Verano
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Atualizado: há 2 horas
Andar na Pedra mostra que a crise já vinha de dentro, silenciosamente, havia muito tempo

O documentário Andar na Pedra - A História do Raimundos, disponível na plataforma Globoplay, apresenta um mergulho intenso na trajetória de uma das bandas mais explosivas do rock nacional. Logo nos primeiros minutos fica evidente que, antes ou depois de qualquer marco pessoal ou religioso, o grupo sempre funcionou como uma verdadeira bomba-relógio prestes a detonar.
Dividido em cinco episódios, Andar na Pedra reúne depoimentos dos quatro integrantes da formação clássica — Canisso, Digão, Fred Castro e Rodolfo Abrantes — reconstruindo desde o primeiro encontro entre Rodolfo e Digão em Brasília até a consolidação da banda com a chegada de Canisso e, mais tarde, Fred.
Além dos músicos, a produção traz vozes importantes do rock brasileiro, como Tico Santa Cruz e Dinho Ouro Preto, além de figuras próximas como familiares, esposas e amigos — entre eles Alexandra, esposa de Rodolfo, e Adriana, esposa de Canisso. A participação de Telo, da banda Filhos de Mengele, ajuda a contextualizar o ambiente underground de Brasília que serviu de berço para o Raimundos.
Um dos pontos mais interessantes do documentário é a forma como explora o processo criativo da banda. Os episódios mostram como músicas icônicas nasceram de brincadeiras, histórias pessoais, vivências no cenário underground e até situações inusitadas do cotidiano — reforçando que a irreverência do Raimundos não era apenas estética, mas parte natural da personalidade do grupo.

O fio condutor do documentário é o constante conflito de personalidades dentro do grupo. Os integrantes deixam claro que a convivência era difícil desde os primeiros anos: desentendimentos abafados, ressentimentos acumulados e a falta de diálogo criaram um ambiente instável muito antes da conversão religiosa de Rodolfo — um marco frequentemente apontado pelo público como o “ponto de ruptura”. Andar na Pedra mostra que a crise já vinha de dentro, silenciosamente, havia muito tempo.
Com linguagem direta, o documentário revisita episódios marcantes, como o rápido ascenso da banda durante os anos 1990, impulsionado pelo humor ácido, pela sonoridade agressiva e pela mistura única de hardcore com elementos do forró. Ao mesmo tempo, expõe momentos difíceis, como o acidente em 8 de novembro de 1997, durante um show no Clube de Regatas Santista, em Santos.
O local, que tinha capacidade para 2.606 pessoas, estava superlotado com 5.974 espectadores. Na saída, um corrimão cedeu devido à pressão da multidão, causando um tumulto que resultou na morte de oito jovens e deixou dezenas de feridos. O episódio marcou profundamente os integrantes da banda e se tornou um ponto doloroso em sua trajetória, sendo abordado no documentário com sobriedade e sensibilidade.
Outra camada essencial explorada pela produção é o impacto que o estrelato teve na saúde emocional e nos relacionamentos dos músicos. Mesmo com discos aclamados e turnês lotadas, a banda caminhava para um esgotamento inevitável. As tensões internas, somadas a escolhas pessoais distintas e à falta de mediação, acabariam por levar ao fim da formação original no início dos anos 2000.
Andar na Pedra acerta ao oferecer uma visão humana e multifacetada do Raimundos. A obra não tenta romantizar nem demonizar ninguém; ao contrário, desmonta mitos e apresenta os quatro integrantes como talentosos, intensos e profundamente falhos — como tantos artistas que ascendem rápido demais. O resultado é um retrato sincero de uma banda fundamental para o rock brasileiro, marcada tanto por sua genialidade musical quanto por seus conflitos internos.
No fim, o documentário reafirma que o Raimundos sempre carregou dentro de si um terreno instável, e é justamente dessa tensão que nasceu parte da força, irreverência e impacto cultural que fazem da banda um dos capítulos mais marcantes da música nacional.
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