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Aftersun captura Paul Mescal em seu momento mais comovente, um retrato sensível sobre a paternidade

Atualizado: 1 de jun.

"Aftersun", a estreia afetiva de Charlotte Wells, é linda, comovente, triste e devastadora.

Foto: Divulgação.



A estreante cineasta escocesa, Charlotte Wells, nos brinda com uma obra-prima. ‘Aftersun’ é primoroso, comovente, bonito e devastador. O longa consegue imprimir uma explosão de sentimentos que chegam até nós em pedaços fragmentados, pincelados pelas satisfatórias e marcantes atuações de Frankie Corio e Paul Mescal, que conseguem encontrar um no outro a química perfeita de uma relação de pai e filha. Essa relação é construída por imagens e retratos de memórias de infância que despertam no telespectador aquele momento reflexivo onde encontramos as peças desse quebra-cabeça chamado vida. A visão de mundo quando criança e quando adulta se entrelaçam através de camadas sensíveis e melancólicas.


É nesse ponto que 'Aftersun' consegue conduzir o público para o campo de contato entre nossas recordações de pessoas queridas em nossas vidas e quem eles são de verdade. Talvez faltem palavras para expressar todas as emoções e sentimentos que afloram durante o filme, mas o que Wells consegue construir nessa narrativa focada na memória e momentos, que podem parecer simples e normais à primeira vista, é algo totalmente difícil de se encontrar hoje no cinema. São detalhes que transformam o comum em algo grandioso e profundo.




A narrativa de ‘Aftersun’ parte da seguinte premissa: em um resort de férias decadente na Turquia, Sophie (Corio), de 11 anos, valoriza o raro tempo junto com seu pai amoroso e idealista, Calum (Mescal). À medida que os fatos e acontecimentos da adolescência se aproximam de Sophie, além de seus olhos, Calum luta sob o peso da vida fora da paternidade. Vinte anos depois, as lembranças ternas de Sophie sobre suas últimas férias tornam-se um retrato poderoso e comovente de seu relacionamento, enquanto ela tenta reconciliar o pai que conheceu com o homem que não conheceu.




Apesar de ser uma diretora nova, Wells, 35, sabe muito bem o que está fazendo e possui uma maturidade brilhante para conduzir o roteiro e as camadas do seu filme. O caminho escolhido, longe daqueles melodramas programados para fazer você chorar (não que 'Aftersun' não te faça derramar algumas lágrimas, ele tem seu próprio caminho para isso), pode ser arriscado. Wells estava ciente dos riscos, e isso é um dos fatores que tornaram 'Aftersun' uma obra fora da caixa, cheia de sentimentos e intimidades que encontram a pureza de uma relação entre pai e filha.


Nesse ponto, o filme é preciso e penetrante. É difícil não se envolver e não se entregar ao dia a dia de Sophie e Calum durante suas férias; a sensação que temos não é de que estamos vendo um filme, mas sim de que estamos presenciando ali de fato as brincadeiras e diálogos de pai e filha. Somos completamente sugados para dentro da obra.


Frankie Corio e Paul Mescal formam uma dupla exuberante na tela. Os espaços físicos entre os dois e a química envolvida fazem com que eles funcionem muito bem no papel de pai e filha. Mescal se revelou na série Normal People (2020), e Frankie Corio está predestinada a ser uma grande estrela do cinema. Com 13 anos esbanja uma maturidade e performance deslumbrante.


‘Aftersun’ é um filme sobre pertencimento, perda dolorosa e criação de memórias, e você se verá imerso em piscinas pessoais desses elementos, procurando sua parte do sol.

A tristeza e o peso que Calum carrega consigo assumem o protagonismo através de pequenos fragmentos, um reflexo no espelho, um mergulho na água, ou em uma pergunta crucial feita por Sophie que fica sem resposta. Às vezes olhar para o passado e ver o que você se tornou hoje, pode estar muito longe daquilo que planejava. Isso, por si, acaba destruindo e corroendo a alma.


Porém, o brilhantismo de Charlotte pode vir do personagem de Paul Mescal, que consegue disfarçar tal tristeza e melancolia diante de sua filha de 11 anos, até mesmo, porque é um terreno complexo e difícil para uma criança entender e assimilar. Esse é ponto crucial do filme, pois ao rever essas memórias hoje com a idade que seu pai tinha na época, Sophie consegue enxergar de fato o homem que ela não conhecia.




O roteiro, que também é conduzido por Charlotte, é muito bem estruturado, a jovem cineasta consegue pisar em terrenos sinuosos com muita sensibilidade, que apesar de a obra poder ser descrita como gentil, contemplativa e bonita, é também o tipo de filme que parece te jogar dá beira de um abismo.


A trilha sonora também não fica atrás, as escolhas das canções combinam perfeitamente com as cenas em destaque. Tanto que "Losing My Religion" do R.E.M. e "Under Pressure" de Bowie/Queen imprimem as tomadas mais bonitas e comoventes do filme, as letras das canções parecem se encaixar perfeitamente com os momentos e externam a tristeza e alegria no olhar de ambos protagonistas. Quem nunca sentiu em um determinado momento da vida estar 'perdendo sua religião', ou sob 'pressão'. "Pensei ter ouvido você rindo/ Pensei ter ouvido você cantar/ Eu acho que pensei ter visto você tentar".


Wells consegue capturar a inocência de seu eu passado de uma perspectiva mais madura e adulta, o que torna o filme uma obra cinematográfica incomum. A fotografia, às vezes com imagens fragmentadas e cortes, ajuda a capturar todo esse simbolismo afetivo das recordações de momentos únicos e marcantes. É difícil pensar nos momentos anteriores a um coração partido e não associá-los a presságios. A mente, muitas vezes, transforma memórias em profecias. As cores são marcadas. As emoções se solidificam. É uma coisa difícil de falar, quanto mais de visualizar.


O poder de 'Aftersun' está justamente em sua originalidade e honestidade, dois fatores que fazem o filme viver intensamente as ambiguidades dos sentimentos dos pais. E com isso criar camadas delicadas de como as pressões sociais e financeiras afetam filhos de pais que se encontram no limite de suportar as mesmas situações perturbadoras. É o que torna o filme da estreante Charlotte Wells assombroso e difícil de esquecer. Uma fatia incerta e sensível da vida. Wells usa a forma de cinema para um discurso sobre memória e conexão, profundo como 'After Life' de Hirokazu Koreeda, mas mais sutil. É uma conquista, merecedora de inúmeras revisitações. Um filme para guardar por toda a vida.

 

Aftersun

Aftersun


Lançamento: 2022

Direção: Charlotte Wells

Roteiro: Charlotte Wells

País: Reino Unido/EUA

Elenco: Frankie Corio, Paul Mescal, Celia Rowlson-Hall


 

NOTA DO CINÉFILO: 9,0

 





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