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A camisa da Bélgica levou uma provocação de Magritte para dentro da Copa do Mundo

13 de jul.
3 min de leitura

Com “Ceci n’est pas un maillot” escondido na gola, uniforme reserva belga transformou uma referência ao surrealismo em parte de sua identidade no Mundial de 2026

Uniforme da Bélgica
(Foto: Divulgação Adidas).


Uma camisa de futebol não precisa explicar muita coisa. Escudo no peito, número nas costas, cores reconhecíveis e pronto. A gente olha e sabe quem está entrando em campo.

A Bélgica resolveu complicar uma coisa que parecia simples. No uniforme reserva preparado para a Copa do Mundo de 2026, uma pequena frase apareceu escondida na parte interna da gola: Ceci n’est pas un maillot. Isto não é uma camisa.




Claro que era. Onze jogadores estavam usando aquilo para disputar uma partida de futebol. E é justamente aí que René Magritte entra na história. O artista belga passou boa parte de sua obra mexendo com a distância entre aquilo que vemos e aquilo que uma imagem representa. Em A Traição das Imagens, de 1929, pintou um cachimbo e escreveu abaixo dele Ceci n’est pas une pipe: “Isto não é um cachimbo”. Não havia truque. Aquilo realmente não era um cachimbo. Era a representação de um.


Quase cem anos depois, a seleção de seu país levou a brincadeira para um lugar que Magritte dificilmente poderia prever: uma Copa do Mundo.


A referência não ficou restrita à frase. O uniforme trouxe elementos associados ao universo visual do pintor, com azul, rosa e formas que remetem às imagens estranhas e familiares que atravessam seu trabalho. As esferas presentes no desenho fazem referência a A Voz do Espaço, enquanto o conjunto transforma a camisa em uma espécie de jogo para quem reconhece de onde vieram aqueles elementos.


Quem não reconhece continua vendo uma camisa de futebol. E isso também funciona.

Porque não é necessário conhecer Magritte para gostar dela. Da mesma maneira, ninguém precisa entender de surrealismo para sentir que há alguma coisa incomum naquele desenho. A arte chegou ao uniforme sem exigir que o estádio virasse uma sala de aula.


Foi justamente quando a bola começou a rolar que a ideia ganhou outra dimensão. A Bélgica utilizou o uniforme contra Senegal, Estados Unidos e Espanha. De repente, uma homenagem pensada inicialmente para uma segunda camisa deixou de existir apenas em fotografias de lançamento. Estava correndo, suando, amassando, recebendo números, nomes, marcas do jogo.


E isso muda nossa relação com o objeto. Uma pintura fica pendurada. Uma camisa de futebol vive coisas. Ela aparece numa fotografia de comemoração, fica associada a uma derrota, recebe o nome de um jogador nas costas, é comprada por alguém do outro lado do mundo. Anos depois, pode estar guardada num armário e ainda carregar a lembrança de uma partida que já não significa nada para quase ninguém.


Contra a Espanha, toda a conversa artística obviamente não serviu para alterar o placar. Futebol continua tendo essa brutalidade maravilhosa: você pode entrar em campo carregando quase um século de história da arte e ainda precisar marcar gols. Magritte provavelmente apreciaria a contradição.





O detalhe mais interessante, porém, continuava escondido. Ceci n’est pas un maillot. Os jogadores carregaram a frase por dentro da gola enquanto milhões de pessoas olhavam para o uniforme por fora. É quase engraçado. A parte que explicava a brincadeira era justamente aquela que o público não conseguia ver durante a partida.


E talvez nem precisasse. Depois que o jogo termina, sobra a fotografia. Depois da fotografia, sobra o objeto. E, em algum momento, alguém encontra aquela camisa sem saber o resultado da partida, quem marcou ou sequer contra quem a Bélgica jogou naquele dia. Olha para ela e pergunta por que está escrito que aquilo não é uma camisa. Nesse instante, quase cem anos depois de Magritte pintar um cachimbo que não era um cachimbo, a provocação começa tudo outra vez.




1 comentário


Jess Harnell
11 de set.

Nunca tinha parado para pensar no quanto uma camisa de futebol pode contar uma história por meio das cores, dos detalhes e das referências culturais. O uniforme da Bélgica é um ótimo exemplo de como esporte e arte podem acabar se encontrando de uma maneira inesperada. Outro dia, navegando por conteúdos relacionados ao futebol, também encontrei https://borawins-br.com/app/ citado no meio de uma conversa. Para mim, são justamente esses detalhes fora das quatro linhas que tornam o futebol tão interessante e mostram como ele consegue se conectar com cultura, identidade e criatividade.

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