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Turbulence - Binary Dream: um testemunho de habilidade e criatividade no mundo do prog metal

Atualizado: 26 de abr.

Embora Binary Dream possa não apresentar uma mudança radical em relação ao disco anterior, a capacidade da banda de se destacar dentro do metal progressivo é notável.

Turbulence
Foto: Elia Abdo


Turbulence é uma banda de metal progressivo criada em 2003 em, Beirute, Líbano. A banda surgiu durante um período intenso e de efervescência cultural e social na região. São influenciados por uma ampla gama de estilos musicais, que vão desde bandas de metal progressivo como Dream Theater, Opeth, Haken, Leprous e Shadow Gallery até elementos da rica tradição musical árabe. Suas letras, muitas vezes, refletem as complexidades da vida no Oriente Médio, abordando questões como identidade, conflito, esperança e resiliência. Essa combinação de elementos líricos profundos e música complexa e emotiva ressoou com uma ampla gama de ouvintes, tanto na região quanto internacionalmente.


Uma das principais características da banda, é a sua habilidade de incorporar em seu som, instrumentos tradicionais árabes, como, por exemplo, o oud e o kanun. Esses instrumentos adicionam uma textura única às suas composições, criando um som que é ao mesmo tempo familiar e inovador. A fusão desses elementos tradicionais com o poder e a técnica do metal progressivo criam uma identidade sonora única que é instantaneamente reconhecível.



Na condição de uma banda de metal no Oriente Médio, os desafios enfrentados são significativos e multifacetados, tais como, restrições culturais e sociais, tendo em vista que em muitos países do Oriente Médio o metal pode ser visto com desconfiança pelas autoridades e por partes da sociedade, escassez de espaços para shows já que a maioria dos locais são relutantes em hospedar eventos de música pesada, pressões externas, como críticas de conservadores ou fundamentalistas religiosos que veem o metal como uma influência negativa. Porém, apesar disso tudo, a capacidade da banda em se adaptar e superar as adversidades é algo realmente inspirador.


Três anos após, Frontal, seu último lançamento, a banda retorna ao cenário por meio de Binary Dream, seu terceiro álbum. A incorporação de riffs pesados dá ao álbum uma agressividade acentuada, enquanto as complexidades rítmicas que se entrelaçam ao longo das faixas exigem uma boa atenção do ouvinte para que sejam apreciadas de forma plena. A mistura de faixas vocais e instrumentais (3 das 9), mostra uma clara intenção de equilibrar expressividade lírica com demonstrações de virtuosismo instrumental. Isso permite que Binary Dream capture uma gama mais ampla de emoções e temas, refletindo os contrastes entre introspecção e explosão, ordem e caos.


O disco é um registro conceitual que explora temas futuristas e reflexões éticas através da história de um robô chamado Sonho Binário e que envolvido em um experimento. A história é um reflexo artístico das preocupações contemporâneas sobre a ascensão das tecnologias de inteligência artificial e seus potenciais impactos na sociedade. Ao escolher um robô como protagonista, a banda mergulha no coração das questões éticas que cercam a inteligência artificial: o que significa ser "consciente", a natureza da autonomia e o potencial para máquinas transcenderem seus parâmetros de programação originais.



Considero quatro os grandes destaques do disco - o que não quer dizer que as outras cinco também não tenham os seus méritos. Theta possui vocais que mesclam o metal e o hard rock, riffs poderosos e solo adequado de guitarra, uma seção rítmica robusta e teclado que permeia a peça dando uma atmosfera envolvente. Uma faixa que não apenas se destaca como uma música poderosa dentro do álbum, mas também exemplifica a habilidade da banda em tecer complexidade técnica com expressão emocional, criando uma peça que é tanto impactante quanto muito bem construída.


Manifestations é uma faixa instrumental que, embora não contenha letras, expressa muito através de uma exibição técnica que serve como uma verdadeira amostra do metal progressivo em sua forma mais pura, demonstrando a capacidade da banda de dominar e manipular complexidades técnicas para tecer uma narrativa sonora rica e envolvente. Fãs de Dream Theater certamente se sentirão familiarizados ao ouvir esta música. Manifestations é erguida sobre um alicerce de habilidades instrumentais excepcionais. Cada integrante traz uma contribuição única, tecendo juntos um mosaico sonoro que é ao mesmo tempo complexo e unificado.


Binary Dream é o épico do disco com os seus mais de 14 minutos. Ela possui tudo que podemos esperar de um clássico exemplo de metal progressivo. Desde o início, cativa o ouvinte com uma construção elaborada que gradualmente se desenrola, gerando tensão na medida em que avança. Os vocais são impactantes, os riffs de guitarra são poderosos e intrincados, alternando entre momentos de intensidade pura e reflexão contemplativa, enquanto que a seção rítmica fornece uma base sólida e dinâmica, impulsionando a música em direção a picos emocionais vertiginosos. Vale destacar também, a influência na música do Oriente Médio e que faz da banda algo tão singular dentro do metal progressivo.



Hybrid é o momento mais “pauleira” do disco. Menos progressiva, possui uma inclinação quase que inteiramente para o heavy metal, apresentando uma abordagem direta e poderosa. A seção rítmica é avassaladora, estabelecendo um groove pulsante, os riffs de guitarras são frenéticos e agressivos e o solo possui influência na música do Oriente Médio, enquanto que o teclado cria uma ótima atmosfera que complementa bem a ferocidade da peça.



Embora Binary Dream possa não apresentar uma mudança radical em relação ao disco anterior, a capacidade da banda de se destacar dentro do metal progressivo é notável. Mesmo em um cenário onde muitos – incluindo eu - argumentam está saturado, a banda consegue entregar um trabalho que se destaca pela sua singularidade e qualidade. Portanto, mesmo que Binary Dream não represente uma reinvenção do gênero, é um testemunho da habilidade e criatividade de uma banda diferenciada.

 

Binary Dream

Turbulence


Ano: 2024

Gênero: Metal Progressivo

Ouça: "Theta", "Manifestations", "Binary Dream", "Hybrid"

Pra quem curte: Dream Theater, Haken, Shadow Gallery





 

NOTA DO CRÍTICO: 8,5

 

Ouça "Manifestations"


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