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Sou Latino-Americano de alma, cultura e pertencimento

Um texto especial sobre América Latina, Bad Bunny e emoções

Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

“Eu sou apenas um rapaz / Latino-americano, sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes / E vindo do interior”. Belchior foi cirúrgico em Apenas um Rapaz Latino-Americano. Poucos versos traduzem com tanta sensibilidade o que significa ser latino-americano: existir entre afetos e desigualdades, sonhos e memórias, resistência e esperança. Não se trata apenas de um território delimitado no mapa — é uma forma de sentir, viver e enxergar o mundo.



Esse sentimento ganhou novo fôlego quando Bad Bunny, nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio, venceu o Grammy de Álbum do Ano, em 1º de fevereiro de 2026, com o marcante Debí Tirar Más Fotos, lançado em 5 de janeiro de 2025. A conquista ultrapassou o mérito individual e se tornou simbólica: foi a arte latino-americana ocupando, sem pedir permissão, o centro das atenções globais.


Dias depois, no Super Bowl LX, em 8 de fevereiro de 2026, Benito reforçou essa identidade em uma apresentação histórica ao lado de Ricky Martin e Lady Gaga. Ao som de um reggaeton vibrante e representativo, reafirmou orgulho, pertencimento e visibilidade para a cultura latina em um dos maiores palcos do planeta.


No entanto, ser latino-americano vai muito além de premiações ou megaeventos. Esse sentimento atravessa camadas profundas da cultura e da história. Está no Oscar e Globo de Ouro que reconheceram produções como Ainda Estou Aqui, O Segredo dos Seus Olhos, Roma e O Agente Secreto. Vive nas obras de Gabriel García Márquez, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Pablo Neruda.


Ecoa no rock argentino de Gustavo Cerati e Fito Páez, na pluralidade da Música Popular Brasileira, no pop latino de Shakira e Thalía, no suingue de Buena Vista Social Club e Los Kjarkas, nas palavras afiadas de Eduardo Galeano e Julio Cortázar, e também nos quadrinhos atemporais de Mauricio de Sousa e Quino. Cada expressão artística amplia essa identidade que não se encerra — apenas se expande.


Assumir esse pertencimento não é moda nem discurso vazio. É uma escolha diária. Posso gostar de fast food, mas não o troco por uma boa comida caseira. Gosto de Nutella, mas não abro mão de um doce de leite bem feito. Curto blockbusters hollywoodianos, mas não substituo o cinema local. Acompanho a Major League Soccer, mas considero o Campeonato Brasileiro mais emocionante. Admiro Batman e Homem-Aranha, mas também adoro Chapolin Colorado. Como já cantaram os Secos & Molhados em Sangue Latino: “Meu sangue latino, minh’alma cativa”.



É importante destacar: valorizar a cultura latino-americana não significa desmerecer produções culturais dos Estados Unidos ou de qualquer outro país. Pelo contrário. É possível ter repertório amplo, consumir diferentes linguagens e, ao mesmo tempo, fortalecer aquilo que nasce em nosso território.


Defender a arte latino-americana é ampliar vozes, reconhecer narrativas próprias e impulsionar produções marcadas por sensibilidade, crítica social, emoção e intensidade. Nossa música, nosso cinema, nossa literatura e nossa cultura pop não são alternativas periféricas — são protagonistas de uma identidade cultural rica e diversa.


Ser latino-americano também é compreender contradições. É reconhecer desigualdades históricas presentes em cada país sem perder a consciência, a humildade e o amor. É terminar o dia com pouco no bolso, mas com muito no coração. É rir de si mesmo, valorizar o outro, preservar culturas locais e carregar um patriotismo que nasce do afeto — nunca da exclusão.


É pertencer sem deixar de dialogar com o mundo. É produzir arte com pluralidade criativa, respeito às influências e naturalidade diversa.


Quando Bad Bunny declarou no Super Bowl que “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor” e afirmou que “somos todos americanos”, ele não apresentou uma novidade — apenas traduziu um sentimento antigo que sempre existiu por aqui e agora ecoa com mais força globalmente. A América Latina é feita de camadas emocionais, histórias entrelaçadas, dores compartilhadas e uma enorme capacidade de acolher, tanto quem nasce nela quanto quem se aproxima.


Este texto não encerra esse sentimento. Pelo contrário: é um convite. Um gesto de afeto. Um lembrete de que ser latino-americano é ferver, criar, resistir e amar. E que se apaixonar pela América Latina é reconhecer sua potência cultural, sua identidade vibrante e seu pertencimento que atravessa fronteiras.




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