Quando o cinema denuncia a violência: cinco filmes brasileiros contra o feminicídio, o machismo e a homofobia
- Marcello Almeida
- 13 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Cinco obras fundamentais do cinema brasileiro que expõem o feminicídio, o machismo, o racismo e a homofobia como estruturas de violência, não como exceções

A violência não começa no ato final. Ela se constrói no silêncio, na naturalização do controle, na piada que humilha, no olhar que julga, na estrutura que ensina quem pode existir e quem deve ser contido. O feminicídio é o desfecho mais brutal de uma lógica antiga, histórica e ainda profundamente enraizada na sociedade brasileira. Não é um desvio. É um sintoma.
O cinema brasileiro, quando encara essa ferida de frente, cumpre um papel que vai além da arte. Ele denuncia, registra e confronta. Expõe o machismo como sistema, o sexismo como regra, o racismo como herança e a homofobia como ferramenta de exclusão e violência. Mostra que essas opressões não atuam separadamente: elas se cruzam, se reforçam e atingem, sobretudo, corpos femininos, negros, periféricos e dissidentes.
Mas esta não é uma lista sobre a morte. É uma lista sobre a vida. Sobre mulheres que resistem, que enfrentam, que seguem existindo mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-las. O cinema, aqui, se recusa a reduzir essas mulheres à condição de vítimas. Pelo contrário: revela sua força, sua inteligência emocional, sua capacidade de ruptura e sua centralidade na construção do mundo. Onde o poder tenta impor silêncio, esses filmes oferecem voz.
Falar de feminicídio, sexismo, racismo e homofobia é falar de urgência. Mas também é afirmar, com clareza, que a mulher não é margem, coadjuvante ou exceção. Ela é o centro da vida, da criação e da transformação social. Esses filmes não pedem empatia, exigem consciência. E lembram que não existe cultura, futuro ou humanidade possível enquanto a violência contra mulheres e corpos dissidentes continuar sendo tratada como normalidade.
1) A Vida Invisível (2019), de Karim Aïnouz

Talvez o retrato mais cruel e silencioso do feminicídio estrutural no cinema brasileiro. Aqui, a violência não vem apenas do soco ou da morte física, mas do apagamento sistemático das mulheres, do controle do corpo, da maternidade compulsória e do silenciamento emocional.
O patriarcado aparece como máquina: educada, doméstica, letal. Um filme que dói justamente por ser cotidiano.
2) O Céu de Suely (2006), de Karim Aïnouz

Antes de o termo “autonomia feminina” virar slogan, esse filme já mostrava o custo real de uma mulher tentar existir fora das expectativas impostas. Hermila não é símbolo nem heroína: é uma mulher tentando escapar de um ciclo de abandono, julgamento moral e violência social.
O machismo aqui não grita. Ele sufoca.
3) Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert

Um filme que desmonta o machismo de classe, aquele que se disfarça de cordialidade. O corpo feminino como força de trabalho, afeto terceirizado e limite invisível. A violência aqui não é explícita, mas está em cada regra não dita, em cada “isso não é pra você”.
Um retrato cirúrgico da herança colonial brasileira.
4) Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz

Violência contra corpos dissidentes, homofobia, racismo e marginalização atravessam cada plano. João Francisco dos Santos existe em permanente estado de confronto com um mundo que tenta destruí-lo.
O filme não romantiza a dor, mas também não pede desculpa por ela. É cinema como ato de resistência.
5) Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), de Daniel Ribeiro

A escolha mais silenciosa da lista — e talvez por isso uma das mais necessárias. Em um país onde a homofobia mata, esse filme afirma o direito ao afeto, ao desejo e à descoberta sem punição.
É político justamente por ser delicado. Um manifesto contra a violência normalizada.











